segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Os 20 anos da queda do muro de Berlim, e suas consequências para o mundo atual

Independente da visão que se tenha da experiência socialista no leste europeu, a simples imagem do velho e pichado muro sendo escalado e dilapidado por multidões eufóricas provou ser o suficiente para arrasar política e ideologicamente não só o “comunismo” como também todos aqueles que se identificam ou já se identificaram, mesmo que minimamente, com os ideais socialistas mais básicos.
Por Eduardo Grandi - autogoverno@gmail.com

Neste dia 9 de novembro completam-se vinte anos da queda do Muro de Berlim, que simbolizou o fim da chamada Guerra Fria – o período histórico marcado pela divisão do mundo entre dois sistemas rivais e antagônicos, o socialismo e o capitalismo. O desaparecimento do chamado “muro da vergonha”, que a exemplo do bloco socialista do leste europeu, desmoronou de forma tão súbita quanto surpreendente, representou o fim de um dos capítulos mais importantes da História moderna e acabaria levando a uma reviravolta de tal magnitude no mundo e na forma com que este se enxerga que não é exagero algum apontar tal evento como o marco zero da civilização atual.

Para entender em que medida tal evento moldou as nossas vidas, é preciso em primeiro lugar ter consciência de que a queda do muro de Berlim foi uma derrota histórica sem precedentes do socialismo frente ao capitalismo. Embora isso pareça visível, há aqueles que discordem apontando ao fato (muito pertinente, aliás) de que, à altura dos meses finais de 1989, pouco restava de comum entre a prática dos regimes do bloco soviético no leste europeu e os ideais teóricos e objetivos políticos apregoados pelo marxismo clássico, sem falar inclusive das importantes diferenças que as nações sob a tutela de Moscou guardavam com relação a outros países socialistas mundo afora, mais próximos dos autênticos ideais comunistas. Sob esse ponto de vista, seria tecnicamente correto afirmar que o que ruiu junto com o muro de Berlim em 1989 não foi o socialismo, e sim o stalinismo. Só que na prática, infelizmente, esta não é a percepção que se logrou construir na psique dos povos do mundo com relação a esse episódio histórico. Isso tem a ver com o fato de que a História da guerra fria e do seu súbito desfecho, como, aliás, ocorre com muitas outras histórias, é contada pelos vencedores desta: e o que esta “história dos vencedores” conta, sobretudo nos EUA e na Europa, é que a guerra fria não foi uma disputa entre capitalismo e socialismo, mas sim entre “democracia” e “comunismo”, ou “mundo livre” versus o “império do mal” soviético, em que, como em uma novela com um belo final feliz, a queda do muro de Berlim nada mais foi do que a vitória da “liberdade” sobre a “tirania”, ou simplesmente do “bem” sobre o “mal”.

O grande perigo de tal “visão” simplista e maniqueísta da história reside no fato de que, muito além de execrar os excessos (reais) do stalinismo no leste europeu, o que realmente se pretende e se consegue fazer com tal retórica é eliminar perante os olhos dos povos do mundo a diferença crucial que há entre stalinismo e socialismo. Assim, o totalitarismo e o conservadorismo burocrático comum aos regimes da dita “cortina de ferro” é convertido por essa visão manipuladora e determinista de um produto de uma realidade histórica específica do passado a um “resultado natural e inerente” do desenvolvimento do socialismo, um “caminho para a servidão” ao qual a simples busca dos ideais socialistas irá sempre e inevitavelmente nos conduzir...

Pior do que simples manipulações, independente da visão que se tenha da experiência socialista no leste europeu, a simples imagem do velho e pichado muro sendo escalado e dilapidado por multidões eufóricas provou ser o suficiente para arrasar política e ideologicamente não só o “comunismo” como também todos aqueles que se identificam ou já se identificaram, mesmo que minimamente, com os ideais socialistas mais básicos. Isso explica porque, antes mesmo do início dos anos 90, já haviam se esfumaçado as ilusões de certos setores da esquerda mundial, em especial social-democratas e trotskistas, que comemoraram a queda da União Soviética e do bloco do leste supondo ingenuamente que dessa forma seria possível separar o joio stalinista do trigo dos verdadeiros ideais socialistas, enquanto perante os olhos do mundo a grande mídia capitalista mundial exibia triunfante às imagens dos berlinenses a derrubarem o odioso muro, aquele mesmo que, por décadas a fio, a propaganda capitalista lograra em associar não ao “stalinismo” (palavra que por sinal nem sequer existe no vocabulário da grande imprensa), mas sim ao socialismo e a todo e qualquer ideal advindo dessa palavra. Não é de se surpreender portanto que, na nova ordem global nascida das cinzas do muro, tanto o trotskismo tenha permanecido na irrelevância política que sempre esteve quanto a social-democracia tenha, ironicamente, sucumbido de mãos dadas com o stalinismo. Pois o fato é que, junto com o muro, o pensamento de esquerda foi simplesmente varrido para longe da “política real”, fazendo do colapso do stalinismo um colapso da esquerda como um todo. Assim, os difíceis anos da década de 90 assistiram a um desgaste ideológico sem precedentes de todos os atores do espectro político de esquerda mundo afora, o que permitiu uma ascensão das forças capitalistas e conservadoras jamais visto na História. Assim, na Europa ocidental, berço do chamado “capitalismo humanizado”, encerrava-se com a queda do muro o pacto anticomunista firmado entre capitalistas e social-democratas no pós-guerra, que ficara marcado por uma era de compromissos do capital para com o povo trabalhador e tornou possível o surgimento do “Estado de bem-estar” social-democrata, o mesmo que hoje, 20 anos após o muro, se encontra totalmente desfigurado por “reformas” que, dia após dia, retrocedem as conquistas sociais acumuladas ao longo da guerra fria pelos movimentos laborais da região, desconstruídos freqüentemente pelos próprios partidos social-democratas, que preferiram voltar-se para a direita do que aceitar sua completa extinção política. Fora da Europa ocidental, tais implicações políticas advindas dos acontecimentos de 1989 em Berlim se fizeram sentir em muito maior intensidade. Com o fim da guerra fria e da divisão do planeta em blocos antagônicos, porta-vozes do capitalismo não hesitaram em decretar “o fim da História”. O mundo, antes dividido, agora se “unia” em torno do “livre mercado”, da competição, das privatizações e da “democracia” liberal capitalista, tudo resumido na ideologia do neoliberalismo, que transformado em unanimidade sacra e intocável pela retumbante queda do muro e de tudo de bom e de ruim que este representava, logrou produzir nos últimos 20 anos o maior e mais espantoso retrocesso social já visto na história da humanidade.

Porém, as conseqüências negativas da queda do muro de Berlim não ficaram confinadas à década de 90. O fato é que as comemorações pelos vinte anos da queda do muro podem ser facilmente usadas (e certamente o serão) para lançar uma nova carga contra os ideais socialistas mundo afora, justamente no momento em que tais ideais vão aos poucos sendo revividos pela ascensão de novos governos populares e progressistas na América Latina e em que a atual crise financeira mundial se soma a velhos problemas para tornar mais evidente do que nunca a incapacidade da nova ordem mundial capitalista em cumprir suas promessas de construir um mundo melhor.

Quanto ao muro em particular, a “história dos vencedores” irá seguir contando aquilo que mais condiz com a ideologia e os interesses dos donos do capital, dessa vez posando como voz unânime dos fatos históricos. Seguir-se-á ignorando a própria responsabilidade do chamado “mundo livre” (velho eufemismo para ocidente capitalista) na formação do muro, que no imediato pós-guerra usou sua posição material avantajada para compelir a pobre e arrasada Alemanha Oriental a fechar o acesso a Berlim Ocidental em 1961. Com o muro erguido, enquanto o lado oriental aliviava-se com o estancamento da sangria de sua mão-de-obra para o ocidente, que permitiu que a nação de 10 milhões de habitantes pudesse enfim começar a se reconstruir da guerra, líderes do ocidente comemoraram o surgimento do muro (por mais que o neguem oficialmente), já que este fora a única maneira de esfriar os ânimos na instável Berlim e afastar o risco iminente de uma Terceira Guerra Mundial. Também nada se dirá neste dia sobre outros “muros” tão vergonhosos quanto o de Berlim, como o muro da Palestina, o “muro” da fronteira México-EUA e, acima de tudo, a imensa “muralha” norte-sul que hoje divide o mundo entre países pobres e ricos e que, tal como Berlim na guerra fria, simboliza como ninguém todo o sofrimento e injustiça existente no mundo dominado pelo capital.

Quanto ao futuro do socialismo, o desaparecimento do tipo totalitário e burocrático de socialismo existente no leste europeu, apesar de todos os reveses e dos poderosos anúncios em contrário gritados sem cessar pela grande mídia capitalista, não conseguirá deter a busca pelos ideais socialistas, a saber a democracia plena, a igualdade, o bem estar comum e a construção de uma sociedade que tenha controle sobre si mesma e não mais seja controlada por minorias inescrupulosas, sejam elas burguesas ou burocráticas. O socialismo não acabou, mas o que as infâmias do muro e seu próprio desfecho deixam claro é que, se não quisermos que o socialismo acabe de fato, os comunistas e a esquerda revolucionária como um todo ainda têm a rever inúmeros conceitos e práticas que, no passado, foram mantidos como dogmas por detrás da “cortina de ferro” até serem repelidos por seus próprios povos numa súbita e extremada explosão à direita, resultando nas trágicas conseqüências que todos conhecemos.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O 11 de setembro que o mundo não pode esquecer

Hoje, 11 de setembro, rememora-se algo que nunca deveria ter acontecido, mas uma vez tendo entrado para a História, jamais poderemos permitir que caia no esquecimento. É o aniversário daquele que foi um dos maiores atentados terroristas de que se tem notícia, que completa hoje 36 anos. Foi no dia 11 de setembro de 1973 que, em um golpe de Estado comandado pelo sinistro general Augusto Pinochet, o Chile e o mundo assistiram impotentes à queda do governo constitucional e democraticamente eleito do Presidente Salvador Allende, afogando em um banho de sangue todas as esperanças daqueles que acreditavam em uma transição pacífica para o socialismo e redefinindo o conceito de terrorismo de Estado em nossa América: desde seu início, saltou aos olhos a crueza e a brutalidade desmedida do golpe, em que aviões de guerra bombardearam o palácio presidencial – com o Presidente Allende dentro! Coisa pior viria após o golpe, quando um redefinido Estado chileno – não mais a serviço do povo, mas sim dos setores mais retrógrados e truculentos da direita chilena – não teria o menor pudor em revelar todo o caráter fascista e assassino do novo regime, que se valeria do terror desmedido para defender aqueles velhos privilégios das elites chilenas que o governo de Unidad Popular, ainda que timidamente, estava por ameaçar. Segundo o Prêmio Nobel Gabriel García Marquez, somente nos primeiros meses do regime Pinochet já haviam 30.000 prisioneiros políticos sendo torturados e humilhados nas prisões chilenas, enquanto quase 20.000 pessoas já haviam sido executadas; ganhou fama mundial o fato do Estádio Nacional de Santiago, principal campo de futebol do país, ter sido transformado num campo de concentração e extermínio de prisioneiros políticos. Porém, o pior legado da ditadura civil-militar no Chile, inaugurada com o golpe de 11 de setembro, certamente foram as medidas econômicas adotadas pelo regime de Pinochet, que até então inéditas no mundo, fariam do Chile um laboratório para aquela política que nos anos 80 seria a espinha dorsal dos governos ultradireitistas de Reagan nos EUA e Thatcher na Grã-Bretanha, e que nos anos 90 engoliria o mundo: trata-se do neoliberalismo, que ao privatizar serviços públicos essenciais e submeter por completo o cidadão comum à lógica irracional do mercado sem limites, produziu marcas profundas e nefastas que perduram até hoje no mundo inteiro, em especial no Chile e na América Latina. Também o contra-exemplo da impunidade com relação aos crimes da ditadura chilena reverbera até os dias atuais, quando a sede golpista de militares e das elites inconformadas com o poder popular leva a episódios como o recente golpe que derrubou o presidente eleito de Honduras.

Tudo isso resultou do golpe de Estado chileno de 11 de setembro de 1973, cujo progenitor é mais que conhecido: foram os EUA que instigaram, defenderam e nutriram do começo ao fim o regime de Pinochet e mais dezenas de outras ditaduras que, na América Latina e no mundo inteiro, encontraram e ainda encontram no Império do norte o mais firme aliado na suja tarefa de sufocar e calar a vontade da maioria. E se hoje, mesmo que a censura da grande mídia nos faça desviar as atenções a esse verdadeiro desastre do 11 de setembro, nos fazendo pensar tão somente em outro mais recente, não nos deixemos iludir pela versão da história dos jornalões e fiquemos atentos a essa ironia ácida proporcionada pela História, que como vingando as centenas de milhares de vítimas dos cães de guarda ianques no Chile, provou ao mundo que, se no 11 de setembro deles, também houveram milhares de vítimas inocentes, elas são antes vítimas de seu próprio governo do que de alguns punhados de fanáticos do oriente. Não se pode jamais espalhar a barbárie no mundo sem esperar que essa mesma barbárie não vá, como num efeito típico de ação e reação, respingar de volta sobre si. Essa é a lição maior que, em nome da(s) vítima(s) do(s) 11 de setembro(s), o mundo jamais poderá esquecer.

domingo, 6 de setembro de 2009

Rapidinhas: pré-sal, Sete de Setembro e nossa América

O petróleo é nosso?

Em seu discurso para o sete de setembro, o Presidente Lula tocou no assunto mais crucial da atualidade: o destino do famoso pré-sal, a reserva de petróleo que pode transformar o Brasil numa Arábia latino-americana. Admitiu que para isso o país precisará necessariamente de uma nova legislação para controlar toda essa riqueza, mas ao tentar explicar qual é o projeto que tem para regular o pré-sal, Lula fez um discurso tão emotivo quanto vago e não apresentou quaisquer garantias de que as incalculáveis riquezas do pré-sal não vão parar em mãos gringas. Lula criticou o atual modelo de gestão de petróleo criado por FHC (que levou à privatização de diversas bacias petrolíferas nos últimos anos), mas também disse que “acredita no livre (sic) mercado”. Convocou o povo a discutir e participar do projeto, mas numa irresponsabilidade espantosa, quer aprovar no Congresso suas novas regras para o pré-sal com toda a pressa possível, em “regime de urgência”. Enalteceu o potencial que a Petrobras tem para cuidar das novas reservas, inclusive afirmando que a empresa se fará presente “em toda a área”, mas afirmou também que cada bacia terá “no mínimo 30%” de participação da estatal – e os outros 70%??
Em resumo, Lula enche a boca para falar da importância de manter a riqueza do pré-sal a serviço do desenvolvimento do país, mas nas entrelinhas deixa escapar que na prática pode acabar permitindo que ocorra justamente o oposto! Já a direita raivosa e entreguista, que sempre morreu de medo do lema que há sessenta anos levou à nacionalização do petróleo brasileiro (“o petróleo é nosso”), além de atacar a Petrobras no seu afã de terminar de privatizar o pouco que sobreviveu ao desgoverno FHC, também adora ridicularizar nos jornalões os poucos que nas ruas, nas universidades e nos sindicatos atentam a uma preocupação inquietante: será que o petróleo é mesmo nosso?


Sete de Setembro: que os excluídos gritem “o Brasil somos todos nós!”

No Brasil, há duas formas usuais de se reagir ao Sete de Setembro e ao sentimento de lembrança da pátria que este nos traz: há aqueles que rejeitam ou até mesmo ridicularizam a data nacional do país, parte como uma reação no estilo “panela de pressão” contra o nacionalismo que lhes foi empurrado goela abaixo nos anos de chumbo da ditadura civil-militar (1964-1985), parte por se envergonharem do seu próprio país, tido como “irremediavelmente perdido” em meio à corrupção, à desorganização, à injustiça e à violência. E do lado oposto há aqueles outros, geralmente os representantes mais gagás da nossa direita raivosa e reacionária, para os quais “ter amor à pátria” significa sair por aí agitando bandeiras verde-amarelas em meio a desfiles militares, ignorando solenemente os graves problemas do nosso país. Ambos os comportamentos caem no extremo, que sempre escapa ao correto. Enquanto os primeiros, verdadeiros “brasilifóbicos”, preferem esquecer a data e apenas aproveitar o feriado em si, os últimos enchem o peito em inócuas juras de amor “à pátria” ao mesmo tempo em que se põem longe da realidade de nosso sofrido povo. Pior, ao fazerem questão de serem os primeiros a vestir o verde e o amarelo e a gritarem o nome do país, muitos desses nacionalistas cegos acabam em suas idéias – e mesmo em sua prática cotidiana – colocando a sua noção distorcida de “Brasil” à frente dos próprios brasileiros! Assim agiram os militares e civis que fizeram a ditadura, bem como todos os desgovernos entreguistas que se seguiram à “redemocratização” no país. Fizeram e ainda fazem porque julgam que “Brasil” se resume à sua elite e nada mais. Ter clareza de quem de fato é “o Brasil” ajuda a escapar dos extremos, tanto dos que odeiam quanto dos que apenas dizem amar nosso país. Antes de tudo, é preciso que não tenhamos mais repulsa por nosso próprio país e sejamos patriotas – não nacionalistas, que pondo o “nacional” acima de tudo, são por definição egoístas e belicosos. Mas precisamos entender que essa pátria a quem devemos carinho e respeito não se resume aos governos nem às elites: o Brasil somos nós, o povo! E da mesma forma que não faz sentido odiar a nós mesmos, não podemos permitir que esse “nós” seja apropriado em nome e em benefício exclusivo “daqueles” que sempre foram donos do país e pensam que o Sete de Setembro e o Brasil são só deles!
Sim, precisamos ser patriotas, pois se não nos importarmos com nós mesmos, quem mais irá se importar? Mas ser patriota é mais do que apenas comemorar a data nacional do seu país. É seguir neste e em todos os demais dias do ano lutando por um Brasil melhor, feito por e para todos nós. Que a 15ª edição do Grito dos Excluídos, manifestação popular nacional que em todo Sete de Setembro enfrenta a apatia de muitos e o boicote quase total da mídia em busca desse novo Brasil, não nos permita jamais esquecer essas verdades.


E a “corrida armamentista” na América do Sul?


Com a visita do Presidente francês Nikolas Sarkozy ao Brasil, o governo federal planeja assinar com a França acordos “estratégicos” de compra de equipamentos e tecnologia militar que vão desde helicópteros e aviões caça até um submarino nuclear, totalizando o assombroso valor de mais de R$ 22 bilhões, soma equivalente ao que será investido no PAC ao longo do ano inteiro, e bem superior às compras de armamentos da Venezuela – que embora possua uma força militar bem inferior à brasileira, tem sido acusada pelos jornalões de ser “perigosa” e de estar fazendo uma “corrida armamentista” no continente. O que não se diz porém é que, embora haja certamente entre os generais brasileiros aqueles ansiosos por esmagar à força o incômodo exemplo da crescente mobilização popular na Venezuela Bolivariana, o autêntico inimigo em potencial fica um pouco mais a oeste. A Colômbia, que já possui um exército maior e mais bem equipado que o brasileiro, que é governada por um regime autoritário, militarista e com fortes pretensões ditatoriais e que ainda por cima pretende instalar sete bases militares do EUA em seu território – convertendo-a na ponta de lança gringa ideal para se mirar as riquezas da Amazônia – é que é o verdadeiro perigo. Ao longo dos séculos o capitalismo sempre buscou superar as suas crises produzindo guerras, de preferência longe de seu quintal, pra lucrar primeiro com bombas e depois com a reconstrução. E os EUA – centro do capitalismo mundial – ainda estão longe de se recuperar da última dessas crises, que por sinal eles mesmos criaram. Haverá um cheiro de guerra no ar?

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Rapidinhas: do Senado à Colômbia

Senado: o teatro da “democracia” dos poderosos

Em mais um triste episódio que atesta o quão irremediavelmente corrompidas se encontram as instituições do capitalismo brasileiro, governo e oposição de direita chegaram a um acordo vergonhoso no caso Sarney: a oposição de direita pára de levantar os podres do presidente do Senado, aliado do presidente Lula, e o governo e seus aliados desistem de cutucar os mesmos podres de Arthur Virgílio, líder do PSDB na casa. O resultado se viu hoje: com PT e de PSDB votando juntos (pra variar) no que lhes convêm, tanto Sarney quanto Virgílio foram absolvidos nesta quinta pelo Conselho de “Ética” do Senado. Nem mesmo o esperneio de senadores petistas contrários à sujeira do “acordão” como Aloísio Mercadante (SP) e Flávio Arns (PR) impediu o conchavo que livrou a cara dos corruptos. O primeiro, pressionado por Lula e Dilma para lavar a mão de José "líder-da-quadrilha-do-Senado" Sarney, vê-se cada vez mais obrigado a renunciar à liderança do PT (Partido do Tudo-vale) na casa. E o segundo, dizendo-se envergonhado com a postura petista de defesa escancarada de tudo que há de mais decadente no Congresso, decidiu deixar o partido... E eis que no Brasil do "capitalismo subdesenvolvido", como sempre tudo converge ao mesmo ponto: quando a oposição majoritária (a de direita) é tão corrupta quanto o governo, os poderosos sempre saem ganhando com um aperto de mãos em celebração às politicagens de sua “democracia”. E quem perde, claro, mais uma vez é o povo brasileiro.


Enquanto isso, na Colômbia...

Nesta semana, o Senado da Colômbia aprovou a emenda de reeleição do presidente Álvaro Uribe, que fica assim mais próximo de poder buscar uma segunda reeleição como mandatário do seu país. Com isso fica no ar uma pergunta crucial: onde se encontram agora a grande mídia e os “vigilantes da democracia” em nosso continente, que sempre prontos a encontrar “pretensões ditatoriais” nas reeleições dos governos progressistas que emancipam a América Latina, agora fecham os olhos às autênticas pretensões ditatoriais daqueles que representam o que há de mais violento e retrógrado em nosso continente? Não sabem (ou fingem não saber) esses “arautos da democracia” que Uribe, um político comprometido com o narcotráfico e com os bandos paramilitares que espalham terror e morte pelo país, intensificou a guerra civil na Colômbia na vã tentativa de destruir a guerrilha, o que apenas sepultou ainda mais fundo a paz nesta que é uma das nações mais violentas do mundo? Onde estão esses defensores da “democracia” que não vêem que é a Colômbia, e não Venezuela, Equador ou qualquer outro, o país recordista de violações de direitos humanos no nosso continente? Onde fica a “democracia” quando se fecha os olhos ao fato de que nenhum outro país do nosso continente possui tantos refugiados e prisioneiros políticos quanto a Colômbia? A que interesses servem essa cegueira dos nossos “formadores de opinião”, que seguem ignorando o fato de que, sob o regime do “sr.” Uribe (principal aliado dos EUA na América Latina), estudantes, sindicalistas e jornalistas são freqüentemente assassinados por um Estado repressor que, convenientemente, há muito já se acostumou em tachar de “terrorista” a qualquer um que ouse pensar diferente deste? Ignoram esses “senhores” que, se há hoje uma corrida armamentista na América do Sul, quem a iniciou não foi outro líder senão esse “sr.” Uribe, que não contente em fazer da Colômbia um dos países mais militarizados do mundo, agora também está prestes a ceder seu território para a criação de mais sete bases militares norte-americanas no coração da Amazônia, em plena fronteira com o Brasil! E agora que esse mesmo Uribe busca se reeleger indefinidamente, não para progredir e libertar a América Latina, mas sim para seguir esmagando a ferro e fogo o povo de seu próprio país, tudo em benefício dos lucros do narcotráfico e das transnacionais estrangeiras, com o agravante de que na sua sede de poder ele possa acabar arrastando a América Latina a uma guerra de proporções jamais vistas, por que nem uma única palavra se ergue na grande mídia contra esse autêntico ditador? E viva a “democracia” capitalista!

domingo, 9 de agosto de 2009

Enquanto isso, no Senado...

A única solução possível para a podridão da nossa política é mais que óbvia, mesmo que incomode a muitos.
autogoverno@gmail.com


Lula, Sarney, Collor, Virgílio, Calheiros, Simon, Tasso, Mão Santa... Ou também PT, PSDB, PMDB, DEMO, PTB, PPS... Nomes e siglas que trazem arrepios! Afinal, o que nós brasileiros fizemos para merecer eles?

O Presidente Lula se agarra a José “ato-secreto” Sarney (não seria Lula o salva-vidas de Sarney??) numa tentativa tão desesperada quanto inútil de seguir controlando o senado (ou pensar que o controla) e manter essa gosma que é o PMDB coesa em favor da candidata do PT, Dilma Roussef, para as eleições do ano que vem. E como já de longa data a máxima do antigo partido dos trabalhadores (hoje convertido em Partido da Tramóia) é “os fins justificam os meios”, Lula nem sequer hesita em chamar para a defesa de Sarney nada menos que Renan “bezerro-de-ouro” Calheiros e Fernando “tô-com-aquilo-roxo” Collor de Mello... Nada mais coerente que corruptos sejam chamados para defender o corrupto-mor, chefe dessa quadrilha auto-intitulada Senado Federal. Mas o que é isso “companheiro”, justo o Collor? Justo aquele que em 1989, ajudado pelo PIG (Partido da Imprensa Golpista), recorreu a uma das campanhas eleitorais mais baixas e sujas que esse País já viu pra te derrotar nas urnas...? Tudo isso se acumula ao pesadelo com que há oito anos o Brasil já se acostumou a ver quase que diariamente nos noticiários: Lula e PT, quem te viu, quem te vê...

E a oposição de direita? Como não podia deixar de ser, se desdobrando pra manter o baixo nível da casa. O líder dessa oposição, Arthur “imaculado” Virgílio (PSDB), esbraveja sem parar apontando os outros com seu dedo sujo de quem, a exemplo de Sarney, também se esbaldou nos tais atos secretos do Senado, tendo ainda por cima a cara de pau de tentar posar junto com seu partido como "o defensor da moralidade” no Congresso. Já o também tucano Tasso “seu-coronel-de-merda” Jereissati, outro “grande moralista” da direita, perdeu as estribeiras em plena sessão do Senado para, num pastelão digno dos piores filmes de comédia, sair trocando xingões com Renan “bezerro-de-ouro” Calheiros, tudo porque o governista tocou na ferida de Tasso, apontando (também com dedo sujo) aos passeios de jatinho pagos pelo tucano com dinheiro público. Até Pedro Simon, tido como o “último refúgio” da moralidade conservadora no Congresso perdeu a pose quando Collor, em outro bate-boca de criança pequena, acusou o senador gaúcho de ter apoiado para a presidência da casa o mesmo Sarney que ele agora execra tão ardorosamente... Então, eis que em meio a esse festival de horrores emerge a voz do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, que num espantoso arroubo de bom senso, pediu a renúncia imediata de todo o Senado. Ergamos as mãos aos céus! Enfim os “guardiões da democracia brasileira” ressoam a vontade do povo! Agora sim temos uma luz no fim do túnel, mesmo que essa luz seja mais teatral do que curativa, por cair na espantosa ingenuidade de crer que “novas eleições” dentro das “leis” vigentes são a cura para a chaga que fere de morte a República. PT, PMDB, PSDB, DEMO e algumas outras são as letrinhas do mesmo alfabeto que não cansam de nos assombrar. Ao respeitável “estado de direito”, ao menos somos livres para escolher entre cair na panela ou na frigideira!

Perdido em meio a tanta desolação, tendo dificuldade cada vez maior em encontrar dentre seus “representantes” algum nome que se salve desse mar de lama, o brasileiro comum se divide entre a rejeição sistemática e enfurecida a tudo que sequer lembre a palavra “política” e o auto-isolamento na sua vida particular e nas futilidades do cotidiano. Porém, ambos os caminhos levam à despolitização e não resolvem o problema. Curiosamente, uma pista de como resolver essa eterna crise de legitimidade da nossa política foi proporcionada justamente por uma das figuras mais folclóricas e rocambolescas do Congresso. Foi o Bobo da Corte do Rei Sarney, o senador piauiense “Mão Santa”, que deu com a língua nos dentes em outro de seus tresloucados discursos em defesa do coronel maranhense ao deixar escapar aquilo que muitos temem pensar. Depois de comparar a roubalheira do Senado com a corrupção generalizada da igreja católica medieval, “Mão Santa” proferiu o “consolo” do povo brasileiro: segundo ele, apesar de todos os seus “deslizes”, “felizmente” o Congresso está aí. Para ele, não fossem “senhores” como Sarney, Collor, Arthur Virgílio, Renan Calheiros e Tasso Jereissati para “salvaguardar a democracia”, o Brasil “estaria que nem Cuba ou Venezuela”. Precisamente! Não fosse a nossa sagrada “democracia” o Brasil estaria muito melhor, como não deixam mentir os indicadores sociais das “terríveis ditaduras” cubana e venezuelana! Tal “conclusão genial” vinda justamente do representante de um dos Estados mais miseráveis do Brasil junto a essa casa de imundícies cada vez mais fétidas que é o Congresso, traz muitos pensamentos inquietantes: que “democracia” é essa afinal em que vivemos? Que “ditaduras” são aquelas que governam para seu povo com muito mais afinco e eficiência do que essa nossa “democracia” tupiniquim? E afinal de contas, o que é “democracia”? Certamente não é se reunir a cada quatro anos em fúteis cerimoniais auto-intitulados “eleições” para referendar a corja que se perpetua em Brasília mandando em nós com suas politicagens sujas e arrogantes, sobre a qual nós, pessoas comuns, não possuímos qualquer controle. Essa é a necessária e mais que natural solução, que não por coincidência, incomoda a muitos: somente uma profunda transformação em nossas instituições e no nosso modo de agir, através de uma revolução democrática que varra para sempre os Lulas, Serras, Sarneys, Collors, Virgílios, Calheiros, Tassos e Mãos Santas de nossas instituições, substituindo-os por novos nomes submetidos ao estrito controle participativo dos cidadãos que os elegeram, pode libertar o Brasil do grande mar de lama que o assola. Autogestão da política! Este é o caminho para enfim instaurarmos no Brasil uma democracia que seja realmente digna desse nome.