sábado, 19 de dezembro de 2009

Nobel de Obama: "um mundo maravilhoso"

Por Elaine Tavares*

Patética cena. Na platéia, de mãos dadas, a realeza. Olhos sorridentes, expressão de gozo e aquela serenidade dos saciados. No púlpito, o arrogante soberano do mundo. Recebia o Nobel da Paz e falava da necessidade da guerra. Nada poderia parecer mais cínico. Justificando a postura imperial dos Estados Unidos, Barack Obama insistia na sagrada missão que este país tem de levar a democracia ao mundo, nem que seja sob o fogo grosso. A imposição da “liberdade liberal” a todo custo, com canhões e bombas.

Grotesca cena, assistida por milhões de pessoas no mundo. Os reis, feito cortesãos, aplaudindo o imperador. E este anunciava a decisão de enviar mais tropas ao Afeganistão, mais mortes, mais destruição, mais dizimação da cultura, da vida. E os lambe-botas, assentindo, extasiados, vendo o dono do mundo, no seu terno vistoso, cuspindo balas. “A guerra é fundamental para preservar a paz...” Que o digam os estadunidenses empobrecidos, os que perderam as casas na crise imobiliária, os que ficaram sem emprego por conta da quebradeira de empresas privadas “competitivas”, os que tiveram de ver seu governo investindo um trilhão de dólares para salvar os bancos, enquanto eles mesmos tem de viver em tendas, sem saúde adequada, sem esperança. Que o digam as gentes dos EUA que observam o Nobel da paz gastar dez bilhões de dólares ao ano com a guerra no Iraque, os que vem seus filhos chegar em caixões.

A guerra dos Estados Unidos não é uma missão confiada por deus para levar boa vida às gentes. A guerra é uma imposição do capital que precisa se expandir. Quando a produção é demais e não há quem compre, é necessário criar alguma destruição para que as empresas possam ter a quem vender. Assim, destruir um país parece ser um bom negócio. Não tem nada a ver com democracia, liberdade e outros destes conceitos bonitos que os cínicos usam para enganar os incautos. O capital lambe os beiços e vai se sustentando mais um pouco, construindo países que foram arrasados pelas bombas.

A teologia que move a sede de poder dos Estados Unidos não nasceu agora, não é exclusividade do jovem imperador. Ela vem de longe na história, e nós, na América Latina, já a sentimos na pele desde quando este país decidiu roubar as terras mexicanas no início do século XIX. Desde lá, as doutrinas de guerra vem assolando nossas vidas, com invasões armadas, invenção de governos ditatoriais fantoches, invasões culturais, invasões empresariais. Tudo isso em nome do “deus” dinheiro, tudo em nome do poder.

Ontem, na entrega do cínico Nobel da Paz, o jovem imperador escrachou a doutrina. Sem pejo. “Não há paz sem a guerra!” E os poderosos – defendeu com seu nariz empinado - tem o direito de impor sua vontade ao mundo. Porque tem os canhões. Michele, vestida como uma imperatriz, deu o toque familiar, limpando tal qual uma dona de casa típica, o fato do marido sob os holofotes. A Globo terminou aí sua matéria, com um riso de admiração no rosto de Bonner e Fátima, eles próprios um casal modelo. E, nas casas, as gentes sorriram. “Quão lindo é esse homem, e quê coragem em defender a guerra!” Enquanto isso, lá longe, no Oriente Médio, as bombas seguem caindo, assim como no Afeganistão, em Honduras, na Colômbia. Mas tudo bem, são só luzes. E é natal...

A razão cínica domina o mundo. Já não há disfarces. Mas eu acredito que uma hora dessas, as gentes acordarão e, decididas, dirão: Já basta! Ou isso, ou a barbárie.

(* texto extraído de carosamigos.com.br)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Em Santa Catarina (e no Brasil?) a ditadura ainda não acabou

Não deixe a impunidade prevalecer! Clique aqui para protestar contra mais essa tentativa de ressuscitar a ditadura no Brasil.

Nas últimas semanas, um escândalo do tamanho do Brasil estourou em Santa Catarina, quando um pretenso jornalista local, um monstro chamado Luiz Carlos Prates, veio a público fazer uma defesa escancarada e irresponsável da ditadura civil-militar (1964-1985), demonizando o sistema democrático-representativo em que vivemos atualmente e glorificando os anos de chumbo, época em que segundo ele, o Brasil “progredia” e não “andava para trás que nem hoje”. Mais escandaloso do que o conteúdo em si de tais “comentários” é o fato de que todo o descalabro insano desse suposto “jornalista” foi vociferado ao vivo e a cores nos televisores de todo o Estado, através do principal programa da emissora RBS, afiliada da Rede Globo na região sul. Espanta também o fato de que, na gravação, presente no youtube, o próprio apresentador do programa atiça o dito “jornalista” a destilar todo o seu ódio à atual ordem legal associando-a descaradamente aos escândalos de corrupção de Brasília.

A “Novembrada”, alvo do ranço retrógrado
Tamanha apologia ao regime de exceção, torturas e autoritarismo que assolou o Brasil no passado recente, saída da boca de um dos principais porta-vozes de uma importante emissora de TV do país, é algo que pode ser surpreendente e inesperado de início, mas que diante de uma simples análise da nossa História se torna bastante previsível e compreensível, embora não menos detestável. Todo o ódio blasfemado pelo suposto jornalista não foi à toa e tinha um alvo bem claro: discutia-se no programa o aniversário de 30 anos de um dos acontecimentos mais importantes (e infelizmente pouco conhecidos) da história recente, a chamada “Novembrada”, uma grande manifestação contra a ditadura que ocorreu em Florianópolis em novembro de 1979, e que teve a importância histórica de marcar o “começo do fim” do regime ditatorial. A Novembrada, na retórica reacionária do auto-intitulado jornalista, se converte assim de um movimento vital para a superação da página mais negra da nossa história, a uma “reação de perdedores e fracassados”.

Os “avanços” trazidos pela ditadura que insiste em não morrer
É elucidativo que a memória viva da Novembrada inspire tais reações de sujeitos como esse “senhor”. A ditadura não permanece viva somente nos sonhos delirantes de certas mentes doentias e no saudosismo de alguns poucos representantes das camadas mais fanáticas e retrógadas da direita. Ela ainda permanece viva materialmente falando, tanto em sua herança maldita ao Brasil atual quanto no poder e influência ainda hoje conservado por protagonistas do antigo regime. Foi graças à abertura “lenta, gradual e segura” dos militares que logrou-se manter muito do essencial do velho regime nos nossos dias atuais de “legalidade”. Quase a totalidade da nossa atual imprensa “livre e democrática” (incluindo aí, não por coincidência, a rede de televisão do dito jornalista) cresceu apoiando a ditadura. Políticos integrantes do “braço civil” da ditadura seguem no poder através de partidos como DEMO, PP e PMDB. O autoritarismo generalizado incutido em nossa sociedade foi herdado da ditadura, bem como diversos dos nossos problemas atuais encontraram no antigo regime terreno fértil para crescerem e se desenvolverem. Os níveis calamitosos de corrupção de hoje em dia tiveram um enorme estímulo no falso moralismo e na falta de transparência e de liberdade de expressão comum a todas as ditaduras. A violência generalizada no campo e nas grandes cidades tem relação direta com o crescimento sem precedentes da miséria e da desigualdade durante a ditadura. A ineficiência e a fragilidade institucional do Estado brasileiro encontra raízes nas duas décadas de inexistência de legalidade no Brasil. Nossa extrema dependência externa às empresas transnacionais e às especulatas do mercado financeiro internacional ganharam reforço durante a ditadura, que entregou o nosso país às corporações privadas estrangeiras e multiplicou por cem a nossa dívida externa... Tudo isso demonstra não só o tamanho do retrocesso que a tão amada ditadura do “Sr” Prates trouxe ao Brasil como também atesta o quanto esta ainda paira sobre o Brasil como uma sombra negra que insiste em não se dispersar.

Apesar de tudo, liberdade!
No entanto, a despeito de tais fatos (e graças principalmente à mobilização popular), o fim da ditadura e a Constituição de 1988 marcaram um grande avanço para o país no sentido em que se desconstruiu muito do que o antigo regime tinha de pior. Veio a liberdade de expressão, o voto direto para a escolha de nossos governantes e a perseguição política tornou-se ilegal, tudo isso abrindo espaço para um maior protagonismo popular na escolha dos rumos do país e aumentando assim enormemente a soberania do povo brasileiro sobre seu próprio destino, o que de fato fez avançar, ainda que de forma incompleta (e a despeito de suas falhas), a democracia no Brasil. Porém, nada disso sensibiliza o suposto jornalista, para quem “verdadeira democracia” havia nos tempos do presidente Figueiredo, o líder da ditadura execrado pela Novembrada, o mesmo que disse preferir cheiro de bosta de cavalo ao cheiro do povo e que, sob a insana e desfigurada lógica do “Sr” Prates, aparece de “pobre vítima” que “morreu pobre”...

Do que eles realmente têm saudade
Aí é que se chega a outro ponto bastante elucidativo sobre o comportamento do “Sr” Prates e de seus patrões da RBS e da Globo. Não é a corrupção ou a violência atuais que incomodam esses “senhores”. É a vontade da maioria, a mobilização popular dos (não por coincidência, cada vez mais criminalizados) movimentos sociais e o espaço bem maior que o regime atual dá às lutas sociais e à busca por nossos legítimos direitos, isso é o que realmente incomoda tais “senhores”. É da “democracia dos ricos” que eles sentem saudade. Eles em questão, diga-se de passagem, são muito mais do que apenas um punhado de loucos. Os saudosistas da ditadura que insiste em não acabar por completo ocupam hoje muitas das posições mais influentes no Brasil, tanto na mídia quanto no Estado e nas grandes empresas, e estimulados pela impunidade aos crimes da ditadura, não hesitarão em tentar ressuscitar a ditadura caso tenham uma oportunidade. Porém há um alento. Se democracia significa “andar para trás”, então podemos ter certeza de que, a despeito e para a decepção de “senhores” como esse tal pretenso jornalista, o povo brasileiro, que é sim um povo bravo e lutador, irá garantir que o nosso país siga firmemente, e cada vez mais, andando “para trás”.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Os 20 anos da queda do muro de Berlim, e suas consequências para o mundo atual

Independente da visão que se tenha da experiência socialista no leste europeu, a simples imagem do velho e pichado muro sendo escalado e dilapidado por multidões eufóricas provou ser o suficiente para arrasar política e ideologicamente não só o “comunismo” como também todos aqueles que se identificam ou já se identificaram, mesmo que minimamente, com os ideais socialistas mais básicos.
Por Eduardo Grandi - autogoverno@gmail.com

Neste dia 9 de novembro completam-se vinte anos da queda do Muro de Berlim, que simbolizou o fim da chamada Guerra Fria – o período histórico marcado pela divisão do mundo entre dois sistemas rivais e antagônicos, o socialismo e o capitalismo. O desaparecimento do chamado “muro da vergonha”, que a exemplo do bloco socialista do leste europeu, desmoronou de forma tão súbita quanto surpreendente, representou o fim de um dos capítulos mais importantes da História moderna e acabaria levando a uma reviravolta de tal magnitude no mundo e na forma com que este se enxerga que não é exagero algum apontar tal evento como o marco zero da civilização atual.

Para entender em que medida tal evento moldou as nossas vidas, é preciso em primeiro lugar ter consciência de que a queda do muro de Berlim foi uma derrota histórica sem precedentes do socialismo frente ao capitalismo. Embora isso pareça visível, há aqueles que discordem apontando ao fato (muito pertinente, aliás) de que, à altura dos meses finais de 1989, pouco restava de comum entre a prática dos regimes do bloco soviético no leste europeu e os ideais teóricos e objetivos políticos apregoados pelo marxismo clássico, sem falar inclusive das importantes diferenças que as nações sob a tutela de Moscou guardavam com relação a outros países socialistas mundo afora, mais próximos dos autênticos ideais comunistas. Sob esse ponto de vista, seria tecnicamente correto afirmar que o que ruiu junto com o muro de Berlim em 1989 não foi o socialismo, e sim o stalinismo. Só que na prática, infelizmente, esta não é a percepção que se logrou construir na psique dos povos do mundo com relação a esse episódio histórico. Isso tem a ver com o fato de que a História da guerra fria e do seu súbito desfecho, como, aliás, ocorre com muitas outras histórias, é contada pelos vencedores desta: e o que esta “história dos vencedores” conta, sobretudo nos EUA e na Europa, é que a guerra fria não foi uma disputa entre capitalismo e socialismo, mas sim entre “democracia” e “comunismo”, ou “mundo livre” versus o “império do mal” soviético, em que, como em uma novela com um belo final feliz, a queda do muro de Berlim nada mais foi do que a vitória da “liberdade” sobre a “tirania”, ou simplesmente do “bem” sobre o “mal”.

O grande perigo de tal “visão” simplista e maniqueísta da história reside no fato de que, muito além de execrar os excessos (reais) do stalinismo no leste europeu, o que realmente se pretende e se consegue fazer com tal retórica é eliminar perante os olhos dos povos do mundo a diferença crucial que há entre stalinismo e socialismo. Assim, o totalitarismo e o conservadorismo burocrático comum aos regimes da dita “cortina de ferro” é convertido por essa visão manipuladora e determinista de um produto de uma realidade histórica específica do passado a um “resultado natural e inerente” do desenvolvimento do socialismo, um “caminho para a servidão” ao qual a simples busca dos ideais socialistas irá sempre e inevitavelmente nos conduzir...

Pior do que simples manipulações, independente da visão que se tenha da experiência socialista no leste europeu, a simples imagem do velho e pichado muro sendo escalado e dilapidado por multidões eufóricas provou ser o suficiente para arrasar política e ideologicamente não só o “comunismo” como também todos aqueles que se identificam ou já se identificaram, mesmo que minimamente, com os ideais socialistas mais básicos. Isso explica porque, antes mesmo do início dos anos 90, já haviam se esfumaçado as ilusões de certos setores da esquerda mundial, em especial social-democratas e trotskistas, que comemoraram a queda da União Soviética e do bloco do leste supondo ingenuamente que dessa forma seria possível separar o joio stalinista do trigo dos verdadeiros ideais socialistas, enquanto perante os olhos do mundo a grande mídia capitalista mundial exibia triunfante às imagens dos berlinenses a derrubarem o odioso muro, aquele mesmo que, por décadas a fio, a propaganda capitalista lograra em associar não ao “stalinismo” (palavra que por sinal nem sequer existe no vocabulário da grande imprensa), mas sim ao socialismo e a todo e qualquer ideal advindo dessa palavra. Não é de se surpreender portanto que, na nova ordem global nascida das cinzas do muro, tanto o trotskismo tenha permanecido na irrelevância política que sempre esteve quanto a social-democracia tenha, ironicamente, sucumbido de mãos dadas com o stalinismo. Pois o fato é que, junto com o muro, o pensamento de esquerda foi simplesmente varrido para longe da “política real”, fazendo do colapso do stalinismo um colapso da esquerda como um todo. Assim, os difíceis anos da década de 90 assistiram a um desgaste ideológico sem precedentes de todos os atores do espectro político de esquerda mundo afora, o que permitiu uma ascensão das forças capitalistas e conservadoras jamais visto na História. Assim, na Europa ocidental, berço do chamado “capitalismo humanizado”, encerrava-se com a queda do muro o pacto anticomunista firmado entre capitalistas e social-democratas no pós-guerra, que ficara marcado por uma era de compromissos do capital para com o povo trabalhador e tornou possível o surgimento do “Estado de bem-estar” social-democrata, o mesmo que hoje, 20 anos após o muro, se encontra totalmente desfigurado por “reformas” que, dia após dia, retrocedem as conquistas sociais acumuladas ao longo da guerra fria pelos movimentos laborais da região, desconstruídos freqüentemente pelos próprios partidos social-democratas, que preferiram voltar-se para a direita do que aceitar sua completa extinção política. Fora da Europa ocidental, tais implicações políticas advindas dos acontecimentos de 1989 em Berlim se fizeram sentir em muito maior intensidade. Com o fim da guerra fria e da divisão do planeta em blocos antagônicos, porta-vozes do capitalismo não hesitaram em decretar “o fim da História”. O mundo, antes dividido, agora se “unia” em torno do “livre mercado”, da competição, das privatizações e da “democracia” liberal capitalista, tudo resumido na ideologia do neoliberalismo, que transformado em unanimidade sacra e intocável pela retumbante queda do muro e de tudo de bom e de ruim que este representava, logrou produzir nos últimos 20 anos o maior e mais espantoso retrocesso social já visto na história da humanidade.

Porém, as conseqüências negativas da queda do muro de Berlim não ficaram confinadas à década de 90. O fato é que as comemorações pelos vinte anos da queda do muro podem ser facilmente usadas (e certamente o serão) para lançar uma nova carga contra os ideais socialistas mundo afora, justamente no momento em que tais ideais vão aos poucos sendo revividos pela ascensão de novos governos populares e progressistas na América Latina e em que a atual crise financeira mundial se soma a velhos problemas para tornar mais evidente do que nunca a incapacidade da nova ordem mundial capitalista em cumprir suas promessas de construir um mundo melhor.

Quanto ao muro em particular, a “história dos vencedores” irá seguir contando aquilo que mais condiz com a ideologia e os interesses dos donos do capital, dessa vez posando como voz unânime dos fatos históricos. Seguir-se-á ignorando a própria responsabilidade do chamado “mundo livre” (velho eufemismo para ocidente capitalista) na formação do muro, que no imediato pós-guerra usou sua posição material avantajada para compelir a pobre e arrasada Alemanha Oriental a fechar o acesso a Berlim Ocidental em 1961. Com o muro erguido, enquanto o lado oriental aliviava-se com o estancamento da sangria de sua mão-de-obra para o ocidente, que permitiu que a nação de 10 milhões de habitantes pudesse enfim começar a se reconstruir da guerra, líderes do ocidente comemoraram o surgimento do muro (por mais que o neguem oficialmente), já que este fora a única maneira de esfriar os ânimos na instável Berlim e afastar o risco iminente de uma Terceira Guerra Mundial. Também nada se dirá neste dia sobre outros “muros” tão vergonhosos quanto o de Berlim, como o muro da Palestina, o “muro” da fronteira México-EUA e, acima de tudo, a imensa “muralha” norte-sul que hoje divide o mundo entre países pobres e ricos e que, tal como Berlim na guerra fria, simboliza como ninguém todo o sofrimento e injustiça existente no mundo dominado pelo capital.

Quanto ao futuro do socialismo, o desaparecimento do tipo totalitário e burocrático de socialismo existente no leste europeu, apesar de todos os reveses e dos poderosos anúncios em contrário gritados sem cessar pela grande mídia capitalista, não conseguirá deter a busca pelos ideais socialistas, a saber a democracia plena, a igualdade, o bem estar comum e a construção de uma sociedade que tenha controle sobre si mesma e não mais seja controlada por minorias inescrupulosas, sejam elas burguesas ou burocráticas. O socialismo não acabou, mas o que as infâmias do muro e seu próprio desfecho deixam claro é que, se não quisermos que o socialismo acabe de fato, os comunistas e a esquerda revolucionária como um todo ainda têm a rever inúmeros conceitos e práticas que, no passado, foram mantidos como dogmas por detrás da “cortina de ferro” até serem repelidos por seus próprios povos numa súbita e extremada explosão à direita, resultando nas trágicas conseqüências que todos conhecemos.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O 11 de setembro que o mundo não pode esquecer

Hoje, 11 de setembro, rememora-se algo que nunca deveria ter acontecido, mas uma vez tendo entrado para a História, jamais poderemos permitir que caia no esquecimento. É o aniversário daquele que foi um dos maiores atentados terroristas de que se tem notícia, que completa hoje 36 anos. Foi no dia 11 de setembro de 1973 que, em um golpe de Estado comandado pelo sinistro general Augusto Pinochet, o Chile e o mundo assistiram impotentes à queda do governo constitucional e democraticamente eleito do Presidente Salvador Allende, afogando em um banho de sangue todas as esperanças daqueles que acreditavam em uma transição pacífica para o socialismo e redefinindo o conceito de terrorismo de Estado em nossa América: desde seu início, saltou aos olhos a crueza e a brutalidade desmedida do golpe, em que aviões de guerra bombardearam o palácio presidencial – com o Presidente Allende dentro! Coisa pior viria após o golpe, quando um redefinido Estado chileno – não mais a serviço do povo, mas sim dos setores mais retrógrados e truculentos da direita chilena – não teria o menor pudor em revelar todo o caráter fascista e assassino do novo regime, que se valeria do terror desmedido para defender aqueles velhos privilégios das elites chilenas que o governo de Unidad Popular, ainda que timidamente, estava por ameaçar. Segundo o Prêmio Nobel Gabriel García Marquez, somente nos primeiros meses do regime Pinochet já haviam 30.000 prisioneiros políticos sendo torturados e humilhados nas prisões chilenas, enquanto quase 20.000 pessoas já haviam sido executadas; ganhou fama mundial o fato do Estádio Nacional de Santiago, principal campo de futebol do país, ter sido transformado num campo de concentração e extermínio de prisioneiros políticos. Porém, o pior legado da ditadura civil-militar no Chile, inaugurada com o golpe de 11 de setembro, certamente foram as medidas econômicas adotadas pelo regime de Pinochet, que até então inéditas no mundo, fariam do Chile um laboratório para aquela política que nos anos 80 seria a espinha dorsal dos governos ultradireitistas de Reagan nos EUA e Thatcher na Grã-Bretanha, e que nos anos 90 engoliria o mundo: trata-se do neoliberalismo, que ao privatizar serviços públicos essenciais e submeter por completo o cidadão comum à lógica irracional do mercado sem limites, produziu marcas profundas e nefastas que perduram até hoje no mundo inteiro, em especial no Chile e na América Latina. Também o contra-exemplo da impunidade com relação aos crimes da ditadura chilena reverbera até os dias atuais, quando a sede golpista de militares e das elites inconformadas com o poder popular leva a episódios como o recente golpe que derrubou o presidente eleito de Honduras.

Tudo isso resultou do golpe de Estado chileno de 11 de setembro de 1973, cujo progenitor é mais que conhecido: foram os EUA que instigaram, defenderam e nutriram do começo ao fim o regime de Pinochet e mais dezenas de outras ditaduras que, na América Latina e no mundo inteiro, encontraram e ainda encontram no Império do norte o mais firme aliado na suja tarefa de sufocar e calar a vontade da maioria. E se hoje, mesmo que a censura da grande mídia nos faça desviar as atenções a esse verdadeiro desastre do 11 de setembro, nos fazendo pensar tão somente em outro mais recente, não nos deixemos iludir pela versão da história dos jornalões e fiquemos atentos a essa ironia ácida proporcionada pela História, que como vingando as centenas de milhares de vítimas dos cães de guarda ianques no Chile, provou ao mundo que, se no 11 de setembro deles, também houveram milhares de vítimas inocentes, elas são antes vítimas de seu próprio governo do que de alguns punhados de fanáticos do oriente. Não se pode jamais espalhar a barbárie no mundo sem esperar que essa mesma barbárie não vá, como num efeito típico de ação e reação, respingar de volta sobre si. Essa é a lição maior que, em nome da(s) vítima(s) do(s) 11 de setembro(s), o mundo jamais poderá esquecer.

domingo, 6 de setembro de 2009

Rapidinhas: pré-sal, Sete de Setembro e nossa América

O petróleo é nosso?

Em seu discurso para o sete de setembro, o Presidente Lula tocou no assunto mais crucial da atualidade: o destino do famoso pré-sal, a reserva de petróleo que pode transformar o Brasil numa Arábia latino-americana. Admitiu que para isso o país precisará necessariamente de uma nova legislação para controlar toda essa riqueza, mas ao tentar explicar qual é o projeto que tem para regular o pré-sal, Lula fez um discurso tão emotivo quanto vago e não apresentou quaisquer garantias de que as incalculáveis riquezas do pré-sal não vão parar em mãos gringas. Lula criticou o atual modelo de gestão de petróleo criado por FHC (que levou à privatização de diversas bacias petrolíferas nos últimos anos), mas também disse que “acredita no livre (sic) mercado”. Convocou o povo a discutir e participar do projeto, mas numa irresponsabilidade espantosa, quer aprovar no Congresso suas novas regras para o pré-sal com toda a pressa possível, em “regime de urgência”. Enalteceu o potencial que a Petrobras tem para cuidar das novas reservas, inclusive afirmando que a empresa se fará presente “em toda a área”, mas afirmou também que cada bacia terá “no mínimo 30%” de participação da estatal – e os outros 70%??
Em resumo, Lula enche a boca para falar da importância de manter a riqueza do pré-sal a serviço do desenvolvimento do país, mas nas entrelinhas deixa escapar que na prática pode acabar permitindo que ocorra justamente o oposto! Já a direita raivosa e entreguista, que sempre morreu de medo do lema que há sessenta anos levou à nacionalização do petróleo brasileiro (“o petróleo é nosso”), além de atacar a Petrobras no seu afã de terminar de privatizar o pouco que sobreviveu ao desgoverno FHC, também adora ridicularizar nos jornalões os poucos que nas ruas, nas universidades e nos sindicatos atentam a uma preocupação inquietante: será que o petróleo é mesmo nosso?


Sete de Setembro: que os excluídos gritem “o Brasil somos todos nós!”

No Brasil, há duas formas usuais de se reagir ao Sete de Setembro e ao sentimento de lembrança da pátria que este nos traz: há aqueles que rejeitam ou até mesmo ridicularizam a data nacional do país, parte como uma reação no estilo “panela de pressão” contra o nacionalismo que lhes foi empurrado goela abaixo nos anos de chumbo da ditadura civil-militar (1964-1985), parte por se envergonharem do seu próprio país, tido como “irremediavelmente perdido” em meio à corrupção, à desorganização, à injustiça e à violência. E do lado oposto há aqueles outros, geralmente os representantes mais gagás da nossa direita raivosa e reacionária, para os quais “ter amor à pátria” significa sair por aí agitando bandeiras verde-amarelas em meio a desfiles militares, ignorando solenemente os graves problemas do nosso país. Ambos os comportamentos caem no extremo, que sempre escapa ao correto. Enquanto os primeiros, verdadeiros “brasilifóbicos”, preferem esquecer a data e apenas aproveitar o feriado em si, os últimos enchem o peito em inócuas juras de amor “à pátria” ao mesmo tempo em que se põem longe da realidade de nosso sofrido povo. Pior, ao fazerem questão de serem os primeiros a vestir o verde e o amarelo e a gritarem o nome do país, muitos desses nacionalistas cegos acabam em suas idéias – e mesmo em sua prática cotidiana – colocando a sua noção distorcida de “Brasil” à frente dos próprios brasileiros! Assim agiram os militares e civis que fizeram a ditadura, bem como todos os desgovernos entreguistas que se seguiram à “redemocratização” no país. Fizeram e ainda fazem porque julgam que “Brasil” se resume à sua elite e nada mais. Ter clareza de quem de fato é “o Brasil” ajuda a escapar dos extremos, tanto dos que odeiam quanto dos que apenas dizem amar nosso país. Antes de tudo, é preciso que não tenhamos mais repulsa por nosso próprio país e sejamos patriotas – não nacionalistas, que pondo o “nacional” acima de tudo, são por definição egoístas e belicosos. Mas precisamos entender que essa pátria a quem devemos carinho e respeito não se resume aos governos nem às elites: o Brasil somos nós, o povo! E da mesma forma que não faz sentido odiar a nós mesmos, não podemos permitir que esse “nós” seja apropriado em nome e em benefício exclusivo “daqueles” que sempre foram donos do país e pensam que o Sete de Setembro e o Brasil são só deles!
Sim, precisamos ser patriotas, pois se não nos importarmos com nós mesmos, quem mais irá se importar? Mas ser patriota é mais do que apenas comemorar a data nacional do seu país. É seguir neste e em todos os demais dias do ano lutando por um Brasil melhor, feito por e para todos nós. Que a 15ª edição do Grito dos Excluídos, manifestação popular nacional que em todo Sete de Setembro enfrenta a apatia de muitos e o boicote quase total da mídia em busca desse novo Brasil, não nos permita jamais esquecer essas verdades.


E a “corrida armamentista” na América do Sul?


Com a visita do Presidente francês Nikolas Sarkozy ao Brasil, o governo federal planeja assinar com a França acordos “estratégicos” de compra de equipamentos e tecnologia militar que vão desde helicópteros e aviões caça até um submarino nuclear, totalizando o assombroso valor de mais de R$ 22 bilhões, soma equivalente ao que será investido no PAC ao longo do ano inteiro, e bem superior às compras de armamentos da Venezuela – que embora possua uma força militar bem inferior à brasileira, tem sido acusada pelos jornalões de ser “perigosa” e de estar fazendo uma “corrida armamentista” no continente. O que não se diz porém é que, embora haja certamente entre os generais brasileiros aqueles ansiosos por esmagar à força o incômodo exemplo da crescente mobilização popular na Venezuela Bolivariana, o autêntico inimigo em potencial fica um pouco mais a oeste. A Colômbia, que já possui um exército maior e mais bem equipado que o brasileiro, que é governada por um regime autoritário, militarista e com fortes pretensões ditatoriais e que ainda por cima pretende instalar sete bases militares do EUA em seu território – convertendo-a na ponta de lança gringa ideal para se mirar as riquezas da Amazônia – é que é o verdadeiro perigo. Ao longo dos séculos o capitalismo sempre buscou superar as suas crises produzindo guerras, de preferência longe de seu quintal, pra lucrar primeiro com bombas e depois com a reconstrução. E os EUA – centro do capitalismo mundial – ainda estão longe de se recuperar da última dessas crises, que por sinal eles mesmos criaram. Haverá um cheiro de guerra no ar?