segunda-feira, 1 de março de 2010

Globo: “Chávez apóia as FARC e o ETA”. E o “rebanho”, como fica?

Dizem que Marx, quando perguntado da grande “imparcialidade” da imprensa capitalista, disse: “Acreditou-se que a proliferação dos mitos cristãos, sob o Império Romano, só fora possível porque a imprensa ainda não tinha sido inventada. Ao contrário, a imprensa [moderna] fabrica mais mitos num só dia do que nunca se pôde fazer outrora durante um século, e o rebanho burguês acredita em tudo e propaga.

Semelhante fenômeno se repete até os dias atuais, nas telinhas e nos jornalões, sempre que o assunto são os desafetos dos poderosos donos do capital. O mais recente exemplo a corroborar a sentença do velho filósofo alemão se viu esta noite no Jornal Nacional, da Rede Globo, que reverberando os jornalões da internet, pôs no ar uma das pérolas mais grotescas dos últimos tempos: citando “investigações da justiça espanhola”, a emissora acusou o presidente venezuelano, Hugo Chávez, de “dar apoio ao grupo terrorista basco ETA e à narcoguerrilha (sic) colombiana.” Simples assim, curto e grosso.

Não é de espantar que aos “srs.” da Globo seja tão difícil raciocinar sobre a veracidade de tais acusações, se perguntando primeiro no quanto é possível acreditar no regime espanhol, herdeiro da velha ditadura franquista, quando o assunto é a “guerra ao terror” de Madrid contra o separatismo basco. Há décadas que o “democrático” regime espanhol prende e reprime qualquer um que ouse levantar a bandeira da libertação do País Basco, tachando sistematicamente (e convenientemente) a todos que discordam da dominação espanhola de “possuírem ligações com o ETA.” Custa também à “cegueira” da Globo admitir o afã espanhol em desestabilizar e derrubar o governo Chávez, que vem ferindo seriamente os privilégios do grande capital espanhol na Venezuela ao expropriar empresas que não cumprem sua função social e especulam sobre a vida do povo. À Globo e aos jornalões custa inclusive enxergar o que raios, afinal, Chávez ganharia “apoiando o ETA desde que chegou a presidência”, em 1999... E sobre a acusação de “dar apoio” às FARC, aquela que, segundo a Globo, “contrabandeia drogas e controla grande parte da Colômbia” (mas como, a guerrilha não estava “destruída” mesmo??), custa também acreditar que Chávez forneceria “apoio” às forças beligerantes da Colômbia, justo ele que tantas vezes repudiou publicamente a luta armada como via de ação política... E como ficam tais acusações quando até mesmo o autoritário presidente colombiano, Álvaro Uribe – inimigo ferrenho de Chávez – declara não acreditar nelas?

Eis que, mais uma vez, somos testemunhas do poder da nossa mídia “livre” capitalista em fabricar mitos. No fim, tudo não passa de uma grosseira repetição da história: em primeiro lugar, repete-se pela total inversão de valores, tão característica dos jornalões; fabrica-se o mito de que a Venezuela “se intromete nas questões dos outros países”, quando é a própria Venezuela vitimada por constantes interferências do estrangeiro (como através das doações milionárias da organização estadunidense USAID para os grupos de oposição a Chávez); fabrica-se o mito de que Chávez “apóia o terrorismo” e planeja “assassinar presidentes da região”, quando é ele próprio vítima de complôs de assassinato, através de inúmeras incursões em solo venezuelano de paramilitares colombianos apoiados por Bogotá e os EUA; fabricam-se mais mitos ao afirmar-se que a Venezuela se converte em uma “ditadura” que “ataca a liberdade de expressão”, isso apesar da democratização do acesso à informação ter experimentado um salto enorme no país nos últimos anos, quando o número de canais de TV na Venezuela saltou de 31 privados e 8 públicos em 1998 para os atuais 65 privados, 37 comunitários e 12 públicos, conforme recente relatório da ONG Jornalistas pela Verdade para a União Européia.

E em segundo lugar, repete-se tanto pela insistência quanto pelo total despudor em se “fabricar” verdades: não é a primeira vez que se acusa a Venezuela de “apoiar as FARC”, de novo sem quaisquer provas, de novo porém “de forma inquestionável”. Como “inquestionável” foi quando se tentou fabricar o mito de que essa mesma FARC “financiava” a campanha eleitoral de Lula, ou quando os jornalões lograram construir o mito das “armas de destruição em massa” no Iraque. Ou, voltando-se mais no tempo, quando se reproduziam com sucesso mitos como o dos comunistas “comedores de criancinhas”... Mitos e mais mitos. Mostrar provas? Para quê? Como bem observou Marx, o “rebanho burguês” vai acreditar de qualquer jeito mesmo...

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Raul Castro e os "direitos humanos" dos capitalistas*

"Houve tortura na Ilha de Cuba, sim senhor, mas na base de Guantánamo, que não é nosso território. Fale para eles [EUA e/ou entidades de 'direitos humanos'] que discutam conosco direitos em igualdades de condições e vamos ver o que sai. Quem controla a imprensa? Vocês são jornalistas e sabem disso. Quando escrevem algo que não convém ao dono o que acontece? Desde que um tal de Gutemberg inventou a imprensa, só se publica o que quer o dono da empresa."

(Raul Castro, presidente de Cuba, ao ser questionado sobre o desrespeito aos direitos humanos em Cuba e após lamentar a morte de preso em greve de fome).

*texto extraído de prestesaressurgir.blogspot.com/

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Um exemplo que vem da... Coréia do Norte!

A Coréia do Norte é, para todos os efeitos, um regime totalitário da pior espécie. Uma caricatura grotesca do comunismo que foi capaz de abolir o marxismo-leninismo em favor de uma filosofia de Estado própria, a chamada Doutrina Juche – um conjunto de dogmas criados pelo fundador do país, o autocrata Kim Il-sung, que entre outras coisas prega o completo isolamento e a busca pela auto-suficiência do pequeno país asiático e estabelece um calendário “alternativo” cujo ano um inicia justamente na data de nascimento do “grande líder”... Atualmente, a Coréia do Norte é uma nação extremamente pobre e atrasada, com uma economia em frangalhos por conta do inflexível e absoluto controle estatal. Trata-se de um país que depende largamente de ajuda humanitária para impedir que seu povo morra de fome, uma “monarquia vermelha” governada atualmente pelo filho do “grande líder”, o excêntrico autocrata Kim Jong-il, que a exemplo do seu pai, manteve o país sob estrito controle de um Estado stalinista com uma compulsão paranóica por controlar cada aspecto da vida de seus cidadãos.

Porém, por incrível que pareça, mesmo um regime como o norte-coreano é capaz de proporcionar exemplos democráticos que não se vêem em quaisquer das ditas “democracias” ocidentais...

Tudo começou quando o governo norte-coreano decidiu realizar reformas no seu sistema monetário, visando “abolir” as relações de mercado e ceifar pequenas fortunas particulares obtidas com o comércio. O pacote econômico se revelou um desastre, agravando a crise do abastecimento e provocando enorme descontentamento popular. Como resultado, o primeiro-ministro do país convocou, semana passada, uma reunião com milhares de representantes dos inminban (ou “brigadas populares”). Cada inminban serve como uma espécie de conselho de base local, composto basicamente por 20 a 40 famílias, servindo em geral como mecanismo de fiscalização do povo e correia transmissora dos desejos do regime. Porém, dessa vez algo de diferente se viu. Surpreendentemente, o primeiro-ministro anunciou o abandono do pacote econômico e pediu desculpas pelos seus resultados desastrosos: “Eu ofereço minhas sinceras desculpas pela reforma cambial (...) Nós faremos o nosso melhor para estabilizar a vida do povo”, disse ele na reunião, conforme divulgou-se na imprensa sul-coreana.

Depois dessa, fica a pergunta: onde que já se viu em alguma “democracia” ocidental qualquer governante pedindo desculpas ao seu povo por seus atos desastrosos? Existe por acaso alguma “democracia” onde tais desculpas sejam transmitidas não por jornais ou televisão, mas sim diretamente ao próprio povo, através dos inminban? E qual das pretensas “democracias” do mundo capitalista possui qualquer coisa que se assemelhe minimamente a essas “brigadas populares”, onde bem ou mal o povo ao menos se vê em contato direto com seus líderes?

Fatos como esse põem em xeque as noções “senso comum” existentes sobre “ditadura” e “democracia”, e servem de alento a todos aquele acreditam que uma alternativa ao capitalismo e sua corrupta “democracia representativa” não só é necessário como possível. Se até mesmo o pior dos socialismos é capaz de dar lições de democracia ao auto-intitulado “mundo livre”, o que mais pode ser considerado impossível?

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

20 anos do fim do apartheid: a História de uma cumplicidade criminosa.

Há exatos vinte anos, em uma data histórica para a Humanidade, o líder negro Nelson Mandela era libertado da prisão, marcando o começo do fim do apartheid, o odioso regime de segregação racial que submeteu o povo negro da África do Sul, dentro de sua própria terra-mãe, à opressão da minoria branca de origem européia. Hoje, não há no mundo quem não tenha admiração por Mandela e pela justeza da sua luta, e tampouco há quem não sinta repulsa pelo falecido apartheid. Mas nem sempre foi assim.

Poucos lembram hoje em dia que, há vinte anos atrás, governos e elites dos EUA e do chamado “ocidente” apoiavam o regime do apartheid de forma ora velada, ora escancarada, tratando-o como um importante aliado “na defesa da liberdade e da democracia” na África; poucos lembram também que o regime norte-americano, que hoje rende louvores a Mandela, o tachava naqueles tempos de “perigoso terrorista”. E menos pessoas ainda lembram que, naqueles tempos, os mais firmes aliados na luta do povo sul-africano contra o regime de segregação racial foram justamente as “terríveis ditaduras” do mundo socialista, em especial Cuba, União Soviética, Angola e Moçambique, que na contramão do chamado “mundo livre”, lutaram de forma implacável para isolar o regime sul-africano perante a comunidade internacional, inclusive pagando com o sangue de seus povos para conter o expansionismo militar do apartheid na África meridional. Mandela jamais deixou de agradecer aos “terríveis comunistas” pelo inestimável apoio destes à liberdade de seu povo, inclusive chamando Fidel Castro de “irmão”.

Nada disso surpreende. A história do apartheid foi a mesma da Guerra Fria, ou seja, foi a história da resistência heróica de povos inteiros contra o poder inescrupuloso do capital transnacional. De início uma luta de classes localizada dos negros pobres da África do Sul contra a opressão de uma elite branca genuinamente fascista, o conflito se proliferou pelo resto da região quando os EUA viram na elite afrikaaner o aliado ideal para apoiar a expansão de suas transnacionais e combater o “perigo vermelho” na África subsaariana – principalmente após a descolonização da antiga África portuguesa e a posterior guinada de Angola e Moçambique para o campo socialista. Assim, o apoio da auto-intitulada “maior democracia do mundo” foi importante não somente para a sobrevivência do apartheid como também estimulou o expansionismo imperialista do regime fascista sul-africano na região. Por todo o século XX, países como Angola, Botsuana, Zimbábue e Namíbia sofreram invasões, agressões e ataques terroristas promovidos pela elite branca capitalista sul-africana, que a exemplo da norte-americana, ambicionava roubar para si o petróleo, o ouro e o diamante de outros povos e submetê-los à completa exploração, tal como já faziam com o próprio povo sul-africano. Porém, tudo mudou com o fim da Guerra Fria e do “perigo vermelho”, tornando o apoio ao apartheid pelos governos do ocidente não somente insustentável como também desnecessário. Completamente isolada, a racista elite branca afrikaaner se viu obrigada a capitular, e o resto da história já se conhece.

Estes são os fatos da cumplicidade do capitalismo com os crimes do apartheid, que passados vinte anos, os donos do capital ainda tentam em vão apagar. Resta saber quando o ocidente “livre e democrático” e seu capitalismo irão pagar sua dívida para com os povos da África subsaariana, ou ao menos prestar contas de seu legado racista e opressor perante a História.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Indagações sobre a “comunidade internacional” e a “ameaça” do Irã.

Na grande mídia, noticiam-se constantemente as “preocupações” da “comunidade internacional” com respeito ao programa nuclear do Irã, que agora cometeu o “terrível crime” de dar um novo salto em sua capacidade de enriquecimento de urânio. A dita “comunidade internacional” (leia-se EUA e seus cupinchas) diz temer que o Irã esteja “próximo” de fabricar bombas atômicas. Cinismo sobre cinismo. A nova usina de enriquecimento do Irã tem capacidade de enriquecer o urânio em 20%, enquanto para produzir uma bomba atômica, é preciso de um enriquecimento de mais de 95%. Trata-se de um salto tecnológico de tal envergadura que necessita muito mais do que apenas vontade de se alcançá-lo, se é que tal vontade existe.

Por que a grande mídia se esquece de mencionar que o governo de Israel, grande inimigo do Irã, já tem há muito a bomba atômica? O desprezo israelense pela vida do “inimigo” – fartamente demonstrado pelos massacres na Faixa de Gaza e pelas décadas de opressão ao povo palestino – faz do agressivo Estado sionista um perigo muito maior para a paz mundial do que o Irã. Por que essa “comunidade internacional” de um só país não demonstra essa mesma “preocupação” para com o programa nuclear israelense? Que moral os EUA, único país da História que foi covarde e monstruoso a ponto de usar a bomba atômica de verdade (exterminando as populações civis de Hiroshima e Nagasaki), tem para falar do “perigo” da “proliferação nuclear”? Seria o medo paranóico do Império de provar um dia do seu próprio veneno? Ou seria parte da obsessão também paranóica das elites do Império em viver procurando "inimigos do país", para que seu povo não perceba que “os inimigos” sempre foram na verdade seus próprios líderes? E qual o interesse da grande mídia nacional em ficar sempre a favor do Império nas disputas deste com seus inimigos? Nossas elites não conseguem mesmo deixar de lado seus velhos hábitos de servilismo ao “amigo do norte”... Isso ajuda a fornecer uma definição mais precisa do conceito de “ocidente” ou “comunidade internacional”: são as elites desses países, ligadas econômica e ideologicamente ao Império, e nunca seus povos, a tal “comunidade internacional” dos jornalões e das agências de notícias-enlatadas.