domingo, 22 de fevereiro de 2009

Lula, Dilma, Serra e a mediocridade da ”política quotidiana”.

Por Eduardo Grandi

autogoverno@gmail.com


Restando ainda um ano para as eleições para presidente da República, acumulam-se os exemplos de quão baixo se encontra o atual nível da disputa de poder no país, de tal forma que o (já iniciado) processo de sucessão presidencial, um ano antes do clímax das urnas, já conseguir ser tão (senão ainda mais) sujo e baixo do que as recentes eleições municipais, consolidando o repertório de baixarias que nos últimos anos tem crescido eleição após eleição em meio aos grandes partidos políticos no Brasil.


Exemplo recente de tão triste tendência, como já é de hábito, foi proporcionado pelo Presidente Lula e por seu partido, que no início deste mês não tiveram o menor pudor em utlizar um encontro nacional de prefeitos, organizado em Brasília pelo Governo Federal, como palanque para promover a candidatura da ministra Dilma Roussef, virtual candidata do PT à sucessão de Lula no Planalto. O circo petista foi tão escandaloso que os participantes do encontro poderiam até mesmo levar de recordação fotografias com as ”celebridades” do evento: o Presidente da República e a sua candidata preferida à sucessão presidencial, a ministra-chefe da Casa Civil.


Já o segundo exemplo negativo, como também não podia deixar de ser, foi iniciado pelos partidos representantes da oposição de direita ao governo Lula, o PSDB e o DEMO. Buscando como sempre posar de ”os grandes defensores da moralidade” na política, a dupla representante do que existe de mais imoral, conservador e anti-progressista no país acionou o Tribunal Superior Eleitoral contra o Presidente Lula e a ministra Roussef, pedindo punição a ambos por motivos óbvios: ou seja, violação da legislação eleitoral por uso da máquina pública com fins eleitoreiros pessoais. Porém, enquanto denunciavam o PT, os representantes maiores da direita assumida nacional caíam no mais completo ridículo de fazerem exatamente o mesmo que condenavam, quando ao mesmo tempo o Governador de São Paulo, José Serra, virtual candidato da dupla PSDB/DEMO à presidência da República, promovia na sede do governo paulista dois mega-encontros reunindo prefeitos e secretários municipais de todo o Estado, o último esta semana, e o primeiro antes mesmo do comício petista, para realizar o mesmo circo de uso ilícito da estrutura pública em uma descarada auto-promoção eleitoreira. A alegação demo-tucana, tal como a petista, era de que o encontro serviria para ”anunciar repasses de verbas” às prefeituras. Porém, tal como em Brasília, o que se viu em São Paulo esta semana, longe de discussões sobre ”detalhes técnicos” de planos de investimento, foi sim um autêntico comício político financiado pelo contribuinte paulista, em que uma platéia de prefeitos, no mínimo suspeitamente simpática, gritava frases de ordem em apoio à candidatura presidencial de um senhor que cometeu até mesmo a infâmia de se auto-promover como ”o melhor ministro da saúde da história do país”, numa pífia tentativa de reescrever a trágica história de epidemias de dengue e mortes nas filas dos hospitais que marcou seu ministério nos também trágicos anos do governo FHC. A única diferença entre os comícios de Brasília e São Paulo foi a reação da imprensa, que não levantou quaisquer suspeitas de crime eleitoral com relação ao palanque demo-tucano, inclusive aproveitando para tachar convenientemente de ”PAC paulista” o programa de investimentos do governador Serra.


Analisando mais a fundo, não surpreende nem um pouco encontrar tantas incômodas semelhanças entre PT e PSDB. Enquanto os tucanos nunca tiveram qualquer vergonha em se reconhecerem como representantes do verdadeiro poder, o poder econômico, os petistas sob o governo Lula se esforçam ainda hoje para serem aceitos no restrito clube de ”representantes oficiais” deste poder, hesitando cada vez menos em recorrer aos mesmos métodos sujos que antes deles sempre sustentaram a direita assumida no controle da Nação. Tanto PT e PSDB quanto os demais grandes partidos que gravitam a seu redor na esfera nacional – como o PP de Maluf, o PTB de Roberto Jefferson, o PMDB de Renan Calheiros ou o DEMO do deputado do castelo – são iguais em suas práticas baixas e corruptas, revelando claramente a decadência do atual sistema partidário brasileiro: se antes já houve um PT que foi exceção a essa regra de corrupção e politicagens, hoje, depois de tantos mensalões, dólares em cuecas e maquiavelismos como os que Lula usa na desesperada e vã tentativa de erguer sua insossa candidata, pode-se lamentavelmente afirmar que a totalidade dos atuais grandes partidos políticos nada diferem tanto em seus fins quanto em seus meios. Independente dos fins que se a princípio se esperavam alcançar, partidos teoricamente tão diversos quanto PT, PSDB, PMDB ou PCdoB na prática aceitaram se submeter por completo à hegemonia do grande capital, verdadeiro detentor do poder nesses tempos atuais de mundo globalizado, que há muito já impõe, pela força inquebrantável dos mercados, uma poderosa ”unanimidade” nas agendas dos mais diversos políticos e partidos. Longe porém de partirem ao enfrentamento de tal poder, tais grupos preferem se acovardar e aceitar comodamente tal situação, se contentando em disputar entre si o cargo de ”gerentes” do capital dominante, dentro dos cada vez mais estreitos círculos de livre atuação impostos pela ”unanimidade dos mercados”. Inserido como está no ”mundo globalizado”, o Brasil não poderia mesmo ser uma exceção na atual e crescente crise mundial de legitimidade dos sistemas partidário-representativos, onde a falta de poder real leva partidos, governos e oposições ”oficiais” a diferirem cada vez menos uns dos outros, reduzindo portanto as metas de todos os que aceitam o ”jogo do capital” a um denominador comum, a busca do cada vez menos funcional ”poder político” como um fim em si, e não mais um meio de se construir soluções aos crescentes problemas que afligem o Brasil e o mundo. Com tanto em comum nos fins (e tão pouco de concreto para se diferenciar uns dos outros aos olhos do eleitorado), não é de se surpeender que políticos e partidos auto-submetidos a essas regras acabem sendo iguais também nos meios, a saber a corrupção generalizada e as detestáveis práticas politiqueiras que infestam o dia-a-dia da assim chamada ”política” propriamente dita. A única alternativa possível é a construção de uma nova política, que ouse ir além das politicagens imediatistas que diariamente infestam os noticiários, atacando a raiz do problema, ou seja, o poder desproporcional do mercado sobre as sociedades e instituições. Tal alternativa para o crescente império da mediocridade da ”política quotidiana” ainda necessita ser construida no Brasil.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

VOCÊ SABIA?

- Que a Palestina é um país de 27000 Km² de extensão e se localiza no Oriente Médio?

- Que Jesus Cristo nasceu na Palestina?

- Que em 1947 a Organização da Nações Unidas – ONU impôs a divisão do território da Palestina para a criação do Estado sionista de "Israel"?

- Que divisão da Palestina foi legitimada através da Resolução nº 181 da ONU – que designa 56% do território para a criação do Estado sionista de "Israel", 43% do território restante para a permanência do Estado da Palestina e 1% para a Cidade de Jerusalém que ficou com status de internacional?

- Que a criação do Estado sionista de "Israel" é fruto da pressão do Sionismo (Movimento Político Judaico) e do Imperialismo?

- Que em 1948 o então criado Estado sionista de "Israel" não respeita os limites de terras designado pela ONU e amplia seu território para 78% roubando mais terras da Palestina?

- Que em 1967, através da Guerra dos 6 dias, o Estado sionista de "Israel" passa a ocupar 100% do Solo Pátrio da Palestina?

- Você sabia que existe o Povo Palestino? A população total de palestinos é de 11,2 milhões! E que eles não tem uma Pátria, pois seu país foi roubado pelo Estado sionista de "Israel"?

- Que restou apenas dois territórios dentro da Palestina para os palestinos viverem?

- Que estes territórios são Gaza: onde residem 1,5 milhões de Palestinos em 365 Km2 e Cisjordânia: onde residem 2,5 milhões em 5.990 Km2, e 1,2 milhões em territórios palestinos ocupados em 1948.

- Que estes 5,2 milhões de palestinos resistem em viver no seu Solo Pátrio, de forma subumana, desprovidos de direitos básicos como: água, alimentos, hospitais, transportes, escolas, empregos e o direito mais elementar: o de ir e vir? E você sabe como vivem os outros 6 milhões de palestinos? Vivem como refugiados, em outros países, sonhando com o dia de retornar para a Palestina Livre!

- Que a Palestina não tem autonomia, independência, governo, terras, enfim, que a Palestina não é um país? Não é uma nação?

- Que Cisjordânia e Gaza são considerados territórios ocupados pelo Estado sionista de "Israel"? Não são considerados o Estado da Palestina?

- Que nestes territórios o Exército sionista de "Israel" controla os palestinos através de centenas de Postos de Revistas? São postos de checagem (check-point) solicitando documentação, aplicando interrogatórios aos Palestinos, todos os dias?

- Que o Estado sionista de "Israel" construiu um muro de 790 km de extensão, com 8 metros de altura, serpenteando Gaza e Cisjordânia para isolar os palestinos, impedindo o acesso ao Estado sionista de "Israel"?

- Que o Estado sionista de "Israel" aprisiona 12 mil presos políticos palestinos, em situações precárias, em cárceres deteriorados?

- Que em 27 de dezembro de 2008 o Exército Sionista de Israel atacou Gaza, bombardeando violentamente o território palestino, com a desculpa de retaliar o movimento político Hamas?

-Que o Exército Sionista de Israel é o 4º exército mais forte, poderoso e moderno do mundo?

- Que em 22 dias de ataques aéreos e terrestres o que aconteceu foi uma matança? Foram ações de extermínios, de limpeza étnica sobre o povo palestino que reside em Gaza. Foram 1300 mortos, 5300 feridos, 5000 casas destruídas, 41 mesquitas explodidas, 5 cemitérios bombardeados, 16 prédios públicos, escolas da ONU e hospitais totalmente destruídos... Que são 80 mil pessoas desabrigadas?

- Que segundo a ONU e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha a reconstrução da região atacada levará anos para ser concluída?

Que o incômodo destas informações provoque em você a sede pela justiça!

O anúncio da justiça não distingue credos, nações ou etnias!

A justiça é construída pela verdade!

O sangue de cada palestino derramado é o adubo na construção da Palestina Livre sobre o seu Solo Pátrio!

Torne-se um solidário com a luta de libertação da Palestina!

A paz só é possível se derrotarmos o Sionismo e o Imperialismo!

Viva a luta de resistência do Povo Palestino!

Nos ajude a construir a Palestina Livre!

Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo Palestino comitepalestinasc@yahoo.com.br

Rapidinhas

Recessão inevitável: ajuda financeira bilionária de Obama não impedirá encolhimento da economia norte-americana em 2009, afirma Banco Central dos EUA (Agência EFE).


Corrupção corporativa: UBS, maior banco da Suíça, é condenado por ajudar clientes estadunidenses a sonegar impostos (Agência EFE).


Tribunal internacional formado por promotores de 11 países declara Estado de Israel culpado por crimes de genocídio, apontando que governo israelense violou Convenções Humanitárias de Genebra e declarações internacionais de direitos humanos nos recentes ataques à Faixa de Gaza (Agência Brasil de Fato).


Criminalização social: governo estadual do Rio Grande do Sul manda fechar escolas em acampamentos do MST, podendo deixar até 400 crianças sem ter onde estudar (Agência Brasil de Fato).

Chargeando



Fonte: Agência Brasil de Fato (http://www.brasildefato.com.br)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

ESPECIAL: 65 anos da Revolução Iugoslava, da autogestão e do socialismo com liberdade: a história de um exemplo para o mundo

Há 65 anos atrás, começava a nascer de uma revolucão socialista a primeira experiência prática de autogestão a nível de nação - a autogestão iugoslava, que com seus erros e acertos representa ainda hoje uma experiência valiosa e de conhecimento obrigatório a todos que sonham com uma sociedade livre e sem exploração.
autogoverno@gmail.com

Nascido em 1918, após a derrota e dissolução do vasto Império Austro-Húngaro na Primeira Guerra Mundial, o Reino da Iugoslávia surgiu da confluência de interesses entre o Pan-Eslavismo (sentimento de união entre os povos “eslavos do sul”) com os diversos nacionalismos locais, que buscavam se proteger mutuamente no instável cenário político da Europa de então. Logo, porém, o reino imergiu em uma série de lutas internas que culminaram na consolidação de uma ditadura monárquica dos sérvios sobre os demais povos. Invadida pela Alemanha Nazista em 1941, a Iugoslávia foi parte anexada, parte dividida em Estados fantoches, sob um clima de caos e sectarismo que deu vazão aos seculares ódios étnicos locais: ao norte, o movimento fascista croata Ustaše (ou Ustashi), sob apoio nazista, iniciou uma campanha de genocídio étnico contra os sérvios; e ao sul, o movimento monarquista sérvio dos Chetnik, que iniciou lutando contra a ocupação alemã, rapidamente tornou-se colaboracionista. Em meio a esse cenário, o Partido Comunista Iugoslavo passou a crescer em popularidade e em influência através da sua guerrilha antifascista (Partisan), que mesmo combatida simultaneamente por alemães, italianos e Chetniks, tornou-se um constante tormento às forças do Eixo, obrigando-as a deslocar grandes contingentes militares para a região. Em 1943, liderados por Jossip Broz “Tito”, os Partisans proclamaram nas montanhas no interior do país o governo da Iugoslávia socialista, que assumiu o poder a nível nacional após a expulsão definitiva dos nazistas em 1945, levada a cabo com a ajuda de tropas britânicas e soviéticas.

No imediato pós-guerra, o governo comunista iugoslavo alinhou-se à União Soviética e afastou-se dos países ocidentais, ao mesmo tempo em que iniciou a estatização generalizada da economia nacional no estilo stalinista. Porém, as contínuas interferências soviéticas contra a soberania iugoslava logo começaram a deteriorar a relação entre os dois países. Por imposição direta de Stalin, que sempre vira com desconfiança Tito e seus camaradas, a União Soviética iniciou uma campanha de hostilidade aberta contra o regime iugoslavo dentro do bloco de países comunistas, culminando com o rompimento entre os dois países em 1948. Com isso, externamente a revolução iugoslava se viu isolada tanto com relação ao ocidente quanto com seus vizinhos comunistas (além de ameaçada por uma possível invasão soviética), enquanto internamente se via confrontada com os problemas trazidos pelos rigores da economia planificada de estilo soviético, que com sua lentidão, ineficiência e controle excessivo sobre a vida dos cidadãos, já disseminava descontentamento entre a população.

Confrontados por tais desafios, os dirigentes iugoslavos se viram obrigados a repensar os rumos de seu processo revolucionário. Nas palavras de Edvard Kardelj, que se tornaria o principal ideólogo da Iugoslávia socialista, “sentimos a necessidade de retornar às origens do pensamento de Marx e da livre associação de produtores por ele proposta”. Assim, a partir daí, os comunistas iugoslavos iniciaram um amplo e profundo processo de desburocratização e democratização da economia e da sociedade iugoslavas que evoluiria pelas três décadas seguintes e ficaria famoso mundialmente com o nome de autogestão (da expressão servo-croata samoupravljane). O primeiro ponto básico de tal processo consistia na idéia de que uma condição necessária para a realização de um socialismo o mais democrático, livre e emancipador possível era a participação direta das pessoas no maior número possível de esferas da vida; excetuando-se o Partido e as Forças Armadas, não apenas fábricas e demais empresas deveriam ser autogeridas (ou seja, administradas pelos próprios trabalhadores ao invés de pelo governo) como também escolas, clubes, associações, até mesmo o Estado, tudo deveria estar sujeito ao princípio da autogestão, disseminando assim relações interpessoais democráticas por toda a sociedade. O primeiro passo para tanto foi a instituição em 1950 da autogestão das fábricas, o que de imediato desviou cem mil burocratas de cargos administrativos para funções produtivas. Também na política importantes reformas foram realizadas, tais como a reforma do Partido Comunista, que ao tornar-se a Liga dos Comunistas da Iugoslávia afastou-se do aparelho estatal e deixou formalmente de ser o partido governante do país para tornar-se uma organização meramente difusora e estimuladora dos valores socialistas em meio à sociedade, tornando a Iugoslávia a primeira nação do mundo sem partidos políticos. Já o segundo ponto básico, que ia de encontro não só com o anterior, mas também principalmente com a essência do projeto político marxista-leninista, consistia em levar a cabo o chamado definhamento do Estado. Se, como Lênin e Marx afirmaram, o ser humano só poderá se tornar plenamente livre e realizado em uma sociedade posterior à socialista, onde não há nem Estado nem classes sociais (portanto, uma sociedade comunista), seria no mínimo um desvio crasso iniciar a construção de tal sociedade pela via contrária, ou seja, reforçando-se o Estado; estaria-se assim repetindo um caminho sem volta rumo a uma versão autoritária e engessada de socialismo que, em todo o mundo socialista, somente a Iugoslávia logrou evitar. Assim, como conseqüência dessa vital percepção, buscou-se reduzir o tamanho do aparelho estatal, principalmente a nível local e regional, substituindo-o aos poucos em suas tarefas e funções por uma crescente sociedade auto-organizada. Socialismo com liberdade através da autonomia, e autonomia através da participação, eram portanto as bases da autogestão iugoslava.

Mesmo após a normalização das relações com o ocidente (1948-50) e com a União Soviética (1955), o processo de autogestão continuou a se aprofundar na Iugoslávia com as reformas constitucionais de 1963 e 1974, que estenderam ainda mais as liberdades civis e o grau de democracia, bem como aumentaram a autonomia das diferentes Repúblicas e Províncias que compunham a federação iugoslava (atendendo às fortíssimas pressões nesse sentido que cresciam especialmente na Eslovênia e na Croácia). Como resultado, a Iugoslávia experimentou entre as décadas de 50 e 70 um desenvolvimento intenso e completo, combinando um forte crescimento econômico com igualdade e um alto grau de liberdade, dentre estas o direito básico de ir e vir para dentro e para fora do país, exemplo único em todo o mundo socialista.

No plano exterior, a Iugoslávia desenvolveu uma postura de neutralidade no cenário mundial da Guerra Fria, se relacionando de forma normal e soberana com ambos os lados em conflito; embora ainda socialista, a liderança iugoslava via claramente que um alinhamento à União Soviética levaria inevitavelmente a uma submissão completa do país aos desmandos de Moscou. Sob a liderança de Tito, o país também teve um papel fundamental tanto como criador quanto como líder do Movimento dos Países Não-Alinhados. Coerente, a política exterior iugoslava não deixou de condenar como inaceitáveis tanto as ações imperialistas dos EUA no Vietnã quanto também a agressão soviética à Tchecoslováquia (1968). Tais atos levaram o país a ser visto pelos demais governos comunistas e por seus simpatizantes mundo afora como um “pária” no mundo socialista, menos porém por seus atos do que pelo perigo em potencial que o exemplo iugoslavo lhes representava: de fato, o resultado mais importante da autogestão iugoslava foi o florescimento naquele país, em um fenômeno único em todo o mundo, de um verdadeiro poder da classe trabalhadora, que contrastava visivelmente com o poder das classes burocratas no restante do mundo socialista. Tal fato tornou a palavra “autogestão” uma verdadeira assombração para as elites governantes do restante do Leste Europeu, o que pode ser comprovado por importantes episódios históricos: em 1968, poucos dias após Tito ser recebido na Tchecoslováquia pelo presidente Dubček e por uma multidão eufórica nas ruas de Praga, tropas do Pacto de Varsóvia invadiram o país, abortando assim as reformas socialistas levadas a cabo pelo Partido Comunista local. A seguir, ideólogos oficiais do recém-restaurado establishment stalinista tcheco iniciaram junto à classe trabalhadora uma campanha de difamação contra a autogestão, afirmando cinicamente que ao negar-lhes tal autogestão, o Estado pretendia “poupar-lhes do desnecessário esforço extra de se auto-administrarem”; da mesma forma, uma década depois, o fechado e ultra-dogmático regime stalinista da Albânia rompia relações com a China maoísta declarando-a “revisionista” e “traidora do socialismo” não por causa da viagem do presidente estadunidense Richard Nixon a Pequim (1971), mas sim anos depois, imediatamente após uma visita oficial de Tito à China (1977). O próprio Tito simbolizava como nenhum outro o modelo iugoslavo de autogestão; embora presidente vitalício, ao longo dos anos 60 e 70 Tito reduziu seus próprios poderes em favor das novas instituições por ele criadas, como a Presidência Coletiva, órgão formado por representantes das oito Repúblicas e Províncias integrantes da Federação Iugoslava, que passaram a se revezar anualmente no cargo de chefe do governo central após a morte de Tito, em 1980.

Nos anos que se seguiram à morte de Tito, porém, os valores de socialismo e de autogestão por ele trazidos passaram a se deteriorar rapidamente: ao desaparecimento da sua liderança carismática e unificadora e à própria crise do socialismo no Leste Europeu se somaram outros problemas específicos à realidade iugoslava, tais como a fraqueza do poder central (fato comum a qualquer federação multiétnica minimamente democrática) e a dependência econômica do país junto ao mundo capitalista (conseqüência do relativo isolamento iugoslavo com relação a seus vizinhos socialistas), fatores que vieram de encontro com a crise global da dívida externa e agravaram suas conseqüências: o crescimento violento da inflação e do desemprego acabaram assim por exacerbar não só as já existentes diferenças entre as cúpulas governantes das repúblicas – Croácia e Eslovênia, mais ricas e desenvolvidas, querendo mais autonomia junto ao governo central, enquanto a Sérvia, maior, mais pobre e atrasada, querendo mais poder – como também ressuscitaram com força máxima as rivalidades nacionalistas entre os diferentes povos iugoslavos. Em meio a esse cenário, se somava também a complexa questão da luta de classes na Iugoslávia: pois o fato é que, embora bastante enfraquecida pelo poder simultâneo da classe trabalhadora oriundo da autogestão, a classe burocrata nunca desapareceu por completo do país, sobrevivendo graças à divisão relativa entre trabalhadores de um lado e governantes e gerentes de grandes empresas de outro. Encontrando na crise dos anos 80 uma oportunidade de suprimir em definitivo o incômodo poder rival dos trabalhadores, as classes burocratas das diferentes repúblicas iugoslavas aumentaram seu poder instigando o ódio nacionalista como forma de propagar ideais direitistas e semear confusão e divisão em meio à classe trabalhadora. Assim, enquanto a Iugoslávia se esfacelava em meio ao ódio étnico e à posterior Guerra Civil (1991-1995), procedia-se na surdina e em todas as partes à destruição da autogestão; sem qualquer resistência, empresas estatais antes sob controle dos trabalhadores eram ou privatizadas ou novamente submetidas ao controle direto do Estado, através de políticas igualmente levadas a cabo até mesmo por líderes tão inimigos e tão diferentes entre si quanto o croata pró-ocidental Franjo Tuđman e o conservador sérvio Slobodan Miloševic.

Atualmente, mesmo dividida e completamente submetida à ordem global neoliberal, a região da antiga Iugoslávia ainda abriga dentro de si resquícios da autogestão. Em todas as ex-repúblicas iugoslavas ainda é possível encontrar empresas autogeridas de pequeno e médio porte, uma semente do poder de classe dos trabalhadores que, embora disperso e enfraquecido, insiste em sobreviver; e todos os anos, especialmente na Sérvia, multidões celebram o aniversário de Tito, mantendo acesa a chama dos seus ideais socialistas. Independente disso, a experiência autogestionária da Revolução Iugoslava jamais poderá ter apagada da História suas inúmeras e impressionantes conquistas: de um país agrário e atrasado, completamente arrasado após a Segunda Guerra Mundial, a Iugoslávia socialista se tornara já nos anos 80 uma nação industrializada, com uma renda por habitante 50 vezes maior que a da época anterior à revolução, além de ter erradicado a miséria e o analfabetismo e alcançado índices de expectativa de vida e mortalidade infantil comparáveis aos dos países mais avançados do planeta: feitos comuns à maioria das nações socialistas, porém com a diferença crucial de que a Revolução Iugoslava alcançou as mesmas conquistas que os seus vizinhos do Leste Europeu sem sacrificar a liberdade de seu próprio povo em contrapartida. Também o julgamento da História é favorável à via iugoslava de socialismo em comparação com a via adotada pelos demais países socialistas da Europa oriental ao se estudar as causas que levaram à derrota da totalidade dos processos revolucionários da região. Pois diferente do socialismo estatizante de estilo soviético, que desmoronou sob o peso incontornável de seus próprios problemas estruturais, inerentes à lógica deste sistema, a grande maioria dos problemas do socialismo de autogestão foram, ao contrário, conjunturais ou próprios da realidade iugoslava, sendo portanto perfeitamente possíveis de serem corrigidos.

Assim, 65 anos após seu nascimento, e mesmo uma década e meia após sua supressão, a Revolução Iugoslava ainda pode ser comemorada como um exemplo ao mundo, por demonstrar na prática que a sua mais valiosa contribuição à Humanidade, o socialismo de autogestão, muito além de ser uma alternativa tanto viável ao capitalismo quanto única na combinação de justiça social com liberdade, também comprovou ser a chave para a questão crucial da criação de um verdadeiro poder da classe trabalhadora, condição esta necessária para a edificação de um socialismo livre, dinâmico e democrático – portanto genuinamente marxista – capaz de evoluir rumo à futura sociedade comunista sem Estado nem classes sociais.