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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Lições de 1989


A História e os motivos da ascensão e queda de um tipo particular de socialismo, tido tanto por seus apologéticos quanto pelo mais ferrenho anticomunismo como a única e universal maneira de se fazer socialismo, tem muito a ensinar sobre quais caminhos devem ser seguidos - e quais não devem - pelos arquitetos do socialismo do futuro.
autogoverno@gmail.com

Nestes dias em que se completam 25 anos da queda do Muro de Berlim, episódio histórico que marcou o desaparecimento do socialismo da Europa e o início da maior ofensiva mundial político-econômico-ideológia da história do capitalismo, a ponto de o senso comum aceitar tal sistema como o único possível,  surge o momento ideal para todos que ainda defendem o socialismo como forma de organização social distinta e oposta ao capitalismo se perguntarem e debaterem junto ao povo as resposta às perguntas que, por mais de duas décadas, temos vergonhosamente evitado de enfrentar: o que deu errado? Até que ponto essa derrota histórica foi provocada por decisões das pessoas, e não pelas terríveis condições impostas pela realidade nos países onde se procurou construir o socialismo? E quais os caminhos que futuras experiências socialistas devem ou não seguir para que não se repitam os erros do passado?

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Uma flor aos fascistas


Neste 25 de Abril quero oferecer uma flor aos fascistas,
e àqueles que têm no atraso e na morte o seu norte.
A eles ofereço a linda e rubra flor,
O Cravo da Revolução.
O Vermelho da Paz do vitorioso Povo Português.
Pois mesmo que o velho travestido de novo tenha traído os ideais de liberdade, paz e socialismo da Revolução

Sei bem, como disse Chico Buarque, que essa flor deixou uma semente
Semente do amanhã, a Revolução é para sempre jovem!
Que neste 25 de Abril, e para sempre, os cravos sigam calando os canhões do fascismo, do ódio, da violência, do preconceito, do machismo, do racismo, da homofobia, da xenofobia e da exploração, os canhões da desumanização da Humanidade.

E aos sempre velhos de coração,
que desconhecem dos povos a Razão,
que o Cravo da Revolução,
lhes cave a sepultura.

25 DE ABRIL SEMPRE!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Visões sobre o socialismo que guiam as atuais mudanças em Cuba

Este trabalho identifica as três principais posições, ou visões, do socialismo em Cuba que estão a influenciar as atuais mudanças: a estatista, a economicista e a auto-gestionária.
por Camila Piñeiro Harnecker *
Fonte: www.temas.cult.cu
A forma que vier a tomar o novo modelo cubano dependerá da influência relativa das diferentes maneiras de entender o socialismo e visualizar o futuro de Cuba. Ainda que estas posições ou correntes de pensamento, no geral, coincidam que, a longo prazo, o principal objectivo deve ser uma sociedade mais justa e liberta das dificuldades económicas que hoje enfrentamos, diferem claramente na sua forma de entender a justiça e a liberdade, portanto o socialismo. Em boa medida partilham o sintomático diagnóstico da situação actual, mas identificam diferentes causas de fundo e soluções para esses problemas. Assim, tendem a estabelecer diferentes metas a curto e médio prazo e, ainda mais importante, a propor diversos meios para alcançar estes objectivos pelo que – ainda que nem sempre se reconheça – levam-nos a diferentes estágios.

domingo, 30 de outubro de 2011

...e deu Cuba outra vez

E mais uma vez deu Cuba na frente do Brasil nos Jogos Panamericanos. Dessa vez em campo neutro, o Pan de Guadalajara viu a pequena nação caribenha, aquela mesma que a mídia capitalista chama de "miserável e falida", cravar dez ouros a mais do que a tão falada "potência emergente" tupiniquim. À frente do Brasil, Cuba ficou em segundo no quadro de medalhas, só sendo superada pela superpotência estadunidense.

É importante dizer que não se trata de estabelecer uma pretensa rivalidade entre cubanos e brasileiros, como tenta fazer o COB (o mesmo, aliás, que vive de apoiar Brasil afora federações esportivas corruptas e desperdiça pelo total descaso o potencial de nossos atletas, verdadeiros heróis da persistência).

Deixando de lado nacionalismos infantis, a pergunta que não quer calar é simples: como pode um país tão pobre e pequeno, isolado à força por 52 anos de bloqueio estadunidense, fazer tanto? A resposta se dá em uma palavra: socialismo. Socialismo que representa a toda uma juventude a oportunidade de desenvolver ao máximo as suas potencialidades (seja nos estudos, na cultura ou nos esportes), porque o que importa na sociedade socialista não é o lucro, mas  sim o ser humano. Onde o lucro é importante, o que resta à juventude são o desemprego, a desocupação e a falta de oportunidades que conduzem às drogas e à criminalidade.

Ah, se o Brasil também fosse socialista...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

De Praga a Havana

Quem passeia pelas vizinhanças de Vyšehrad, na zona sul de Praga, capital da República Tcheca, irá fatalmente se deparar com a espantosa visão da ponte de Nuselský. Construída nos anos 70 pelo antigo regime socialista da então Tchecoslováquia, a hoje principal artéria de ligação do trânsito do sul ao centro da capital tcheca é um colosso de concreto de quase 500 metros de comprimento e mais de quarenta de altura, tão grande que por dentro de si passam duas vias da linha C do metrô de Praga. Obra de vital importância para o transporte na capital tcheca e até mesmo cartão postal da cidade, Nuselský no entanto aparece com outros olhos para quem vive debaixo dela. Pois o que há de mais inacreditável sobre a titânica ponte é que, sob o imenso vão desta, no vale de Nusle, há todo um bairro repleto de prédios residenciais, onde vivem pessoas que foram simplesmente ignoradas pelos que decidiram construir o gigante. Vista das ruas e prédios escondidos debaixo de Nuselský, a ponte adquire uma onipresença faraônica, capaz de encolher quase à insignificância a vida das pessoas e transmitir a qualquer visitante a incômoda sensação de ter sido transportado de súbito a uma espécie de futuro distópico e decadente. Sob esses diferentes pontos de vista, a visão dos que se beneficiam da ponte e dos que são obrigados a conviver no vale sob ela, Nuselský torna-se um símbolo bastante esclarecedor do que foi o socialismo no leste europeu: muito utilitarista, mas também bruto demais; bastante importante sob os principais aspectos necessários à vida das pessoas, mas ao mesmo tempo, frequentemente insensível para com essas mesmas pessoas.


Foi com o espírito de mudar aquilo que precisava ser mudado que, em 1968, o povo tcheco-eslovaco foi às ruas em apoio aos seus líderes do Partido Comunista quando esses anunciaram a realização de reformas no sistema visando, nas palavras destes, implementar na Tchecoslováquia uma outra forma de socialismo, um "socialismo com face humana". Mesmo desconsiderando a infeliz escolha de palavras (pois mesmo com todos os seus problemas, não há nem nunca houve sistema mais humano do que quaisquer dos socialismos), é de se louvar a decisão dos comunistas tchecos de 1968, que souberam captar a voz das fábricas e das ruas que dizia que as coisas não iam bem e tiveram a sensibilidade de seguir as reivindicações do seu povo por mudanças, iniciando assim um processo de transformações que chamou a atenção e encheu de expectativas a comunistas e amantes do progresso e da liberdade em todo o planeta. Porém, tão logo iniciou, o processo conhecido como a Primavera de Praga foi esmagado pelos tanques das tropas do Pacto de Varsóvia, sob o comando do conservadorismo burocrático vigente na União Soviética da era Brejnev, que decidiu que o protagonismo popular dos tchecos e seus anseios por mudança eram "uma ameaça ao socialismo", uma subversão tão perigosa ao monolitismo stalinista que justificava a sua supressão pela força bruta.


O trágico destino da Primavera de Praga serviu para destruir de vez a imagem do socialismo no mundo, dando munição aos capitalistas que sempre o apresentaram como "irremediavelmente autoritário", além de dividir os comunistas europeus entre os que apoiavam e os que denunciavam a agressão à Tchecoslováquia, levando os primeiros em em geral a se fechar cada vez mais no seu conservadorismo, os últimos a caírem numa repulsa anti-soviética que os desviou por caminhos como o eurocomunismo, e ambos a um crescente definhamento e isolamento político, marcando a curva descendente, o começo do fim, do socialismo na Europa. Porém, pior que tudo isso, com a destruição violenta da "primavera de Praga", Moscou acabou por transmitir uma clara mensagem aos povos da Tchecoslováquia e de todo o leste europeu: só podia haver uma forma de se fazer socialismo, e estavam fechadas quaisquer possibilidades de mudanças dentro dos marcos deste sistema. Assim, se não podia realizar seus anseios dentro de tal ordem, e não podendo escolher nada além do seis ou sessenta, o povo decidiu cada vez mais pela rejeição ao sistema, que se consumou duas décadas depois com a destrutiva onda anticomunista de 1989. Hoje, os comunistas tchecos se agrupam em torno do Partido Comunista da Boêmia e Morávia, que mantendo algo da tradição da Primavera de Praga, é conhecido – e denunciado por stalinistas – por manter uma certa crítica ao passado socialista de seu país, o que não por coincidência faz com que tchecos tenham o único partido comunista do leste europeu, fora da antiga União Soviética, com representação no seu Parlamento nacional e com expressiva influência política sobre seu povo.


E o socialismo cubano, o que tem a ver com isso? Tem a ver que, a partir de abril deste ano, durante o 6º Congresso do Partido Comunista de Cuba, o país terá a oportunidade de discutir aquela que poderá ser a maior onda de mudanças no socialismo da ilha desde a revolução em 1959. Acompanhando a realização de tal Congresso, as forças progressistas e libertárias do mundo esperam ansiosas por ver ali um pouco do espírito da Primavera de 1968, da mesma forma que o povo cubano espera desse Congresso uma maior realização dos seus anseios por resolver os problemas que afligem o dia a dia do cubano comum, problemas que têm causas muito mais profundas do que tão somente o criminoso bloqueio imposto pelos Estados Unidos à ilha, conforme o próprio presidente cubano Raúl Castro tem admitido em diversas ocasiões.


Assim, nesta que é hoje a pátria do socialismo no mundo, o último bastião da causa revolucionária internacionalista, surge no horizonte uma nova oportunidade de os comunistas corrigirem seus erros e mostrarem ao mundo uma forma de socialismo que melhor apele a anseios populares universais, permitindo ao comunismo sair de sua posição defensiva dos úlitmos vinte anos e voltar a avançar politicamente. Não mais a velha prática de fazer o que for necessário para atravessar o vale, custe o que custar, mas de antes ouvir o que as pessoas lá embaixo no vale têm a dizer. Não mais apenas fazer "o que for melhor" para o povo, mas antes ajudar este a se organizar para que o próprio povo possa fazer para si aquilo que julgar melhor. Em outras palavaras, não mais a dureza desse "utilitarismo" puro e simples, mas também, como nas palavras de Che, a ternura da qual o socialismo não pode prescindir. Clima propício para mudanças radicais dentro do socialismo existe, com a crise mundial do capitalismo pondo em xeque os valores neoliberais e com a América Latina fecunda de governos progressistas (embora seja preciso ressaltar, não socialistas) amigos de Cuba.


Que, a exemplo dos reformadores de 1968, o Partido cubano tenha a coragem, a força e a sensibilidade de mudar o que for preciso, dentro dos marcos do socialismo, pela evolução e aprimoramento deste sistema. E que nenhum comunista sincero se ponha contra as necessárias mudanças dentro da ordem socialista, do contrário se correrá o risco de se repetir a história, primeiro como tragédia e depois como farsa, "ensinando" aos cubanos que eles deveriam pensar em mudanças fora dos marcos do socialismo.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Os 20 anos da queda do muro de Berlim, e suas consequências para o mundo atual

Independente da visão que se tenha da experiência socialista no leste europeu, a simples imagem do velho e pichado muro sendo escalado e dilapidado por multidões eufóricas provou ser o suficiente para arrasar política e ideologicamente não só o “comunismo” como também todos aqueles que se identificam ou já se identificaram, mesmo que minimamente, com os ideais socialistas mais básicos.
Por Eduardo Grandi - autogoverno@gmail.com

Neste dia 9 de novembro completam-se vinte anos da queda do Muro de Berlim, que simbolizou o fim da chamada Guerra Fria – o período histórico marcado pela divisão do mundo entre dois sistemas rivais e antagônicos, o socialismo e o capitalismo. O desaparecimento do chamado “muro da vergonha”, que a exemplo do bloco socialista do leste europeu, desmoronou de forma tão súbita quanto surpreendente, representou o fim de um dos capítulos mais importantes da História moderna e acabaria levando a uma reviravolta de tal magnitude no mundo e na forma com que este se enxerga que não é exagero algum apontar tal evento como o marco zero da civilização atual.

Para entender em que medida tal evento moldou as nossas vidas, é preciso em primeiro lugar ter consciência de que a queda do muro de Berlim foi uma derrota histórica sem precedentes do socialismo frente ao capitalismo. Embora isso pareça visível, há aqueles que discordem apontando ao fato (muito pertinente, aliás) de que, à altura dos meses finais de 1989, pouco restava de comum entre a prática dos regimes do bloco soviético no leste europeu e os ideais teóricos e objetivos políticos apregoados pelo marxismo clássico, sem falar inclusive das importantes diferenças que as nações sob a tutela de Moscou guardavam com relação a outros países socialistas mundo afora, mais próximos dos autênticos ideais comunistas. Sob esse ponto de vista, seria tecnicamente correto afirmar que o que ruiu junto com o muro de Berlim em 1989 não foi o socialismo, e sim o stalinismo. Só que na prática, infelizmente, esta não é a percepção que se logrou construir na psique dos povos do mundo com relação a esse episódio histórico. Isso tem a ver com o fato de que a História da guerra fria e do seu súbito desfecho, como, aliás, ocorre com muitas outras histórias, é contada pelos vencedores desta: e o que esta “história dos vencedores” conta, sobretudo nos EUA e na Europa, é que a guerra fria não foi uma disputa entre capitalismo e socialismo, mas sim entre “democracia” e “comunismo”, ou “mundo livre” versus o “império do mal” soviético, em que, como em uma novela com um belo final feliz, a queda do muro de Berlim nada mais foi do que a vitória da “liberdade” sobre a “tirania”, ou simplesmente do “bem” sobre o “mal”.

O grande perigo de tal “visão” simplista e maniqueísta da história reside no fato de que, muito além de execrar os excessos (reais) do stalinismo no leste europeu, o que realmente se pretende e se consegue fazer com tal retórica é eliminar perante os olhos dos povos do mundo a diferença crucial que há entre stalinismo e socialismo. Assim, o totalitarismo e o conservadorismo burocrático comum aos regimes da dita “cortina de ferro” é convertido por essa visão manipuladora e determinista de um produto de uma realidade histórica específica do passado a um “resultado natural e inerente” do desenvolvimento do socialismo, um “caminho para a servidão” ao qual a simples busca dos ideais socialistas irá sempre e inevitavelmente nos conduzir...

Pior do que simples manipulações, independente da visão que se tenha da experiência socialista no leste europeu, a simples imagem do velho e pichado muro sendo escalado e dilapidado por multidões eufóricas provou ser o suficiente para arrasar política e ideologicamente não só o “comunismo” como também todos aqueles que se identificam ou já se identificaram, mesmo que minimamente, com os ideais socialistas mais básicos. Isso explica porque, antes mesmo do início dos anos 90, já haviam se esfumaçado as ilusões de certos setores da esquerda mundial, em especial social-democratas e trotskistas, que comemoraram a queda da União Soviética e do bloco do leste supondo ingenuamente que dessa forma seria possível separar o joio stalinista do trigo dos verdadeiros ideais socialistas, enquanto perante os olhos do mundo a grande mídia capitalista mundial exibia triunfante às imagens dos berlinenses a derrubarem o odioso muro, aquele mesmo que, por décadas a fio, a propaganda capitalista lograra em associar não ao “stalinismo” (palavra que por sinal nem sequer existe no vocabulário da grande imprensa), mas sim ao socialismo e a todo e qualquer ideal advindo dessa palavra. Não é de se surpreender portanto que, na nova ordem global nascida das cinzas do muro, tanto o trotskismo tenha permanecido na irrelevância política que sempre esteve quanto a social-democracia tenha, ironicamente, sucumbido de mãos dadas com o stalinismo. Pois o fato é que, junto com o muro, o pensamento de esquerda foi simplesmente varrido para longe da “política real”, fazendo do colapso do stalinismo um colapso da esquerda como um todo. Assim, os difíceis anos da década de 90 assistiram a um desgaste ideológico sem precedentes de todos os atores do espectro político de esquerda mundo afora, o que permitiu uma ascensão das forças capitalistas e conservadoras jamais visto na História. Assim, na Europa ocidental, berço do chamado “capitalismo humanizado”, encerrava-se com a queda do muro o pacto anticomunista firmado entre capitalistas e social-democratas no pós-guerra, que ficara marcado por uma era de compromissos do capital para com o povo trabalhador e tornou possível o surgimento do “Estado de bem-estar” social-democrata, o mesmo que hoje, 20 anos após o muro, se encontra totalmente desfigurado por “reformas” que, dia após dia, retrocedem as conquistas sociais acumuladas ao longo da guerra fria pelos movimentos laborais da região, desconstruídos freqüentemente pelos próprios partidos social-democratas, que preferiram voltar-se para a direita do que aceitar sua completa extinção política. Fora da Europa ocidental, tais implicações políticas advindas dos acontecimentos de 1989 em Berlim se fizeram sentir em muito maior intensidade. Com o fim da guerra fria e da divisão do planeta em blocos antagônicos, porta-vozes do capitalismo não hesitaram em decretar “o fim da História”. O mundo, antes dividido, agora se “unia” em torno do “livre mercado”, da competição, das privatizações e da “democracia” liberal capitalista, tudo resumido na ideologia do neoliberalismo, que transformado em unanimidade sacra e intocável pela retumbante queda do muro e de tudo de bom e de ruim que este representava, logrou produzir nos últimos 20 anos o maior e mais espantoso retrocesso social já visto na história da humanidade.

Porém, as conseqüências negativas da queda do muro de Berlim não ficaram confinadas à década de 90. O fato é que as comemorações pelos vinte anos da queda do muro podem ser facilmente usadas (e certamente o serão) para lançar uma nova carga contra os ideais socialistas mundo afora, justamente no momento em que tais ideais vão aos poucos sendo revividos pela ascensão de novos governos populares e progressistas na América Latina e em que a atual crise financeira mundial se soma a velhos problemas para tornar mais evidente do que nunca a incapacidade da nova ordem mundial capitalista em cumprir suas promessas de construir um mundo melhor.

Quanto ao muro em particular, a “história dos vencedores” irá seguir contando aquilo que mais condiz com a ideologia e os interesses dos donos do capital, dessa vez posando como voz unânime dos fatos históricos. Seguir-se-á ignorando a própria responsabilidade do chamado “mundo livre” (velho eufemismo para ocidente capitalista) na formação do muro, que no imediato pós-guerra usou sua posição material avantajada para compelir a pobre e arrasada Alemanha Oriental a fechar o acesso a Berlim Ocidental em 1961. Com o muro erguido, enquanto o lado oriental aliviava-se com o estancamento da sangria de sua mão-de-obra para o ocidente, que permitiu que a nação de 10 milhões de habitantes pudesse enfim começar a se reconstruir da guerra, líderes do ocidente comemoraram o surgimento do muro (por mais que o neguem oficialmente), já que este fora a única maneira de esfriar os ânimos na instável Berlim e afastar o risco iminente de uma Terceira Guerra Mundial. Também nada se dirá neste dia sobre outros “muros” tão vergonhosos quanto o de Berlim, como o muro da Palestina, o “muro” da fronteira México-EUA e, acima de tudo, a imensa “muralha” norte-sul que hoje divide o mundo entre países pobres e ricos e que, tal como Berlim na guerra fria, simboliza como ninguém todo o sofrimento e injustiça existente no mundo dominado pelo capital.

Quanto ao futuro do socialismo, o desaparecimento do tipo totalitário e burocrático de socialismo existente no leste europeu, apesar de todos os reveses e dos poderosos anúncios em contrário gritados sem cessar pela grande mídia capitalista, não conseguirá deter a busca pelos ideais socialistas, a saber a democracia plena, a igualdade, o bem estar comum e a construção de uma sociedade que tenha controle sobre si mesma e não mais seja controlada por minorias inescrupulosas, sejam elas burguesas ou burocráticas. O socialismo não acabou, mas o que as infâmias do muro e seu próprio desfecho deixam claro é que, se não quisermos que o socialismo acabe de fato, os comunistas e a esquerda revolucionária como um todo ainda têm a rever inúmeros conceitos e práticas que, no passado, foram mantidos como dogmas por detrás da “cortina de ferro” até serem repelidos por seus próprios povos numa súbita e extremada explosão à direita, resultando nas trágicas conseqüências que todos conhecemos.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Porque a única saída para a crise ambiental é o socialismo.

Há muito que o mundo discute a importância vital de reduzir as emissões de gases do efeito estufa para impedir a devastadora crise ambiental que o aquecimento global ameaça nos infligir nas próximas décadas. Desde a eleição de Obama à presidência dos EUA, com a conseqüente queda da irracional extrema-direita que governava a última potência mundial insensível à ameaça do colapso ambiental, hoje não há mais no mundo quem discorde da urgência em se reduzir a queima de combustíveis fósseis (como carvão e derivados de petróleo) causadores do aquecimento global. Então porque sucessivos encontros de cúpula dos principais líderes mundiais, como o encontro do G8 ocorrido essa semana na Itália, têm fracassado sucessivamente em apresentar medidas práticas contra essa crise ambiental que se avizinha, mesmo sendo esta de longe a maior ameaça já enfrentada pela Humanidade?

Em primeiro lugar porque, independente do sistema econômico-social existente, seja ele capitalismo, socialismo ou qualquer outro, o fato é que hoje a economia mundial ainda é extremamente dependente das velhas e poluidoras fontes de energia; e embora atualmente já exista tecnologia para substituí-las por outras fontes limpas e renováveis, tal adaptação terá um custo financeiro muito alto. Assim, é natural que nenhuma nação queira pagar o pato pela crise. Só que vivemos em um mundo extremamente desigual, e portanto também é natural que cada país precise dar sua parte no combate à crise ambiental de acordo com suas capacidades. Aí é que as regras da ordem capitalista mundial começam a se chocar com a necessidade urgente de se agir: pois há muito que os países ricos vêm cobrando das nações ditas “em desenvolvimento” (em especial a Índia e a China, hoje os maiores poluidores do mundo) que “também eles” reduzam drasticamente suas emissões de gases do efeito estufa, ignorando no entanto que somente os ricos é que têm o dinheiro e a tecnologia para fazer isso. É fato que sem a adesão dos países “em desenvolvimento”, qualquer esforço de redução do aquecimento global será em vão. Mas esses países simplesmente não dispõem dos meios para tanto, meios estes que, na forma de capital e patentes de tecnologias, seguem como propriedade particular das transnacionais dos países ricos. Cria-se assim um impasse, para o qual simplesmente não há solução dentro dos marcos do sistema mundial de produção-para-o-lucro: existem os meios para se deter o aquecimento global, mas estes não são plenamente utilizados.

Em resposta a esse dilema, recentemente o governo do Brasil fez uma proposta revolucionária. Como é menos difícil fazer revolução com quem não financia a sua campanha eleitoral, a representação brasileira junto ao Painel Intergovernamental de Mudança Climática da ONU não temeu em clamar pelo óbvio: que aos países “em desenvolvimento” seja permitido quebrar patentes de tecnologias capazes de conter o aquecimento global, e que um fundo mundial seja criado para financiar o acesso a esses equipamentos. Não há de fato outra alternativa senão essa: tornar de domínio público os meios capazes de evitar a crise ambiental, meios esses que hoje são propriedade particular de um punhado de empresas. Só que aí não está mais se falando em capitalismo, mas sim em socialismo. Nesse sentido, não é de se estranhar a reação imediata dos governos dos países ricos (esses sim financiados pelas transnacionais) que se opuseram de imediato pela inclusão desse assunto no próximo encontro sobre o acordo climático a ser realizado em dezembro na Dinamarca, inclusive acusando os autores da proposta de “oportunistas”.

Neste exemplo fundamental, vê-se claramente como a própria essência do capitalismo impede qualquer solução dentro deste sistema para os problemas ambientais que nos ameaçam cada vez mais. Tentativas de se deter o aquecimento global nos marcos do sistema, tais como o comércio dos chamados “créditos de carbono”, fracassaram completamente em oferecer uma resposta efetiva à crise. É preciso pois que a Humanidade se desfaça enquanto ainda há tempo dessa perigosa ilusão, a de que o aquecimento global e a crise ambiental como um todo possam ser enfrentados sem exigir uma mudança profunda e radical em nossa civilização moderna, em nosso modo de vida e na forma de sociedade em que nos organizamos. Impedir o total colapso ambiental do planeta em que vivemos, sem dúvida o desafio mais colossal já enfrentado pelo gênero humano, é uma tarefa imensa demais para poder ser levada a cabo apenas mudando-se uma ou outra coisa no sistema. A transformação precisa ser completa. A superação definitiva da crise ambiental exige um novo mundo, completamente diferente do que existe atualmente, um mundo socialista.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Capitalismo x Socialismo – o grande jogo do século XX

Quando aquele comentarista alemão barbudo anunciou que a disputa do título da mais avançada sociedade existente ia ser decidido entre o Capitalismo e um tal de “Socialismo”, ninguém deu crédito a ele. Como o poderoso time de Smith, Ricardo, Bismark e a Rainha Vitória poderia ser desafiado na decisão por um timinho de um pequeno punhado de teóricos “do-mundo-da-lua” e de agitadores “malucos”? É claro que não, dizia a imprensa esportiva, negando até mesmo que pudesse existir tal jogo. Mesmo que o barbudo alemão insistisse nas inúmeras fragilidades do time do Capital, que iam desde a zaga social cheia de buracos até o instável ataque da economia, ninguém dava atenção a tal confronto. O escrete do Capital, diziam os locutores burgueses, havia na prática ganho antecipadamente o campeonato muito antes quando o time, então comandado pelo técnico Napoleão Bonaparte, eliminara a equipe do Feudalismo com uma estrondosa goleada. Depois dessa, diziam eles, não haviam mais quaisquer adversários à altura das “leis econômicas naturais” e da “missão civilizatória” do Capitalismo. Por isso, insistia a imprensa esportiva, em verdade não havia sequer jogo a acontecer.


Porém, sem que praticamente ninguém percebesse, a História se encarregou de colocar frente a frente o poderoso Capitalismo contra a novel agremiação dos “malucos de vermelho”. E logo aos 17 minutos, em jogada individual de craque, o centroavante Vladi “Bolchevique” Lenin apareceu na pequena área para se aproveitar de uma domingada do zagueiro capitalista (um tal de Guerra Imperialista) e tocar pro fundo das redes. Socialismo 1 x 0. O estrondoso tento chamou a atenção de toda a redondeza, e agora que as arquibancadas do estádio já iam se enchendo, a imprensa esportiva não podia mais negar que havia sim um título em disputa, e que seu time preferido tinha do outro lado a ser batido um adversário digno de uma grande final. Porém o time do Capital, que jogava todo de branco, sentiu o gol sofrido e errava passes bobos. Aproveitando-se da confusão adversária, o Socialismo rondava a área adversária com os meias Bella “Revolução Húngara” Kun, Rosa “Spartakus” Luxemburgo e o sempre perigoso atacante Movimento Operário, levando o time do Capital a começar a apelar pra violência. As botinadas dos beques capitalistas tiraram Rosa e Kun do jogo, obrigando o técnico vermelho a substituí-los pelos imprevisíveis e pouco entrosados Leon “Peruca” Trotsky e Zé “Kulak” Stalin. Mas mesmo assim, logo a seguir a zaga do Capital voltou a falhar, e após um lance grotesco do goleiro Crise Econômica (justo ele que, diziam, nunca mais ia voltar a falhar), o Socialismo ampliou o marcador aos 29 minutos. Com dois a zero no placar o desespero tomou conta do time de branco, e o técnico do Capital (o enigmático “Sr. Sistema”) resolveu apelar pro banco de reservas. Saem o Liberalismo e a Democracia, entram os agressivos centroavantes Adolf “Te Mato” Hitler e Benito “Boçal” Mussolini. Empurrados pelos gritos da torcida dos governos francês, inglês e ianque, a nova dupla de ataque dos brancos passou por cima do Movimento Operário e começou a pressionar o miolo de zaga soviético. Porém, num contra-ataque fulminante nos minutos finais do primeiro tempo, o centroavante Exército Vermelho marcou mais um para os vermelhos. Para o espanto de muitos, após os primeiros 45 minutos de jogo o placar era Socialismo 3 x 0. Tamanho era o estrago sofrido pelo escrete do Capital que o Socialismo, que começou sem ninguém a lhe apoiar nas arquibancadas, agora tinha a China inteira e metade da Europa torcendo a seu favor.


Acuado pelo impressionante placar construído pelo adversário, o técnico do Capital decidiu no intervalo fazer mudanças radicais. Ele sacou do time sua alucinada dupla de ataque nazi-fascista e até mesmo o capitão Exploração Selvagem (pelo menos por alguns minutos, pensava ele com seus botões de ouro), substituindo-os por suas jovens promessas: John “estimular-a-demanda” Keynes, Social-“nem-tanto”-Democracia e Consumismo S.A., todos aguardando ansiosos pela oportunidade de estrear e ajudar seu time a buscar a virada. O técnico também orientou os gandulas Grande Mídia e Serviço Secreto a censurar, sabotar e dar golpes sempre que a bola sobrasse pros de vermelho (quem disse que o jogo era em campo neutro??). No entanto, a favor do Capital havia o alento de que o time adversário, embora bem à frente no placar, estava tão ou mais estropiado do que quando começara a partida. Tudo graças à violência do antijogo branco, que primeiro com as botinadas da Repressão Policial e da Perseguição Política, depois com a Devastação da Guerra em campos adversários, ocorrida nos últimos minutos da etapa inicial, conseguira exaurir e encher de contusões o escrete rubro (e isso que a imprensa esportiva dizia que a equipe do Socialismo é que era a violenta!). E se a Guerra e tudo o mais os havia deixado bem atrás no placar, ao menos o Capital lucrara enormemente com os encarniçados embates dos minutos finais do primeiro tempo, prometendo assim voltar bem mais preparado do pós-guerra do intervalo. Os de vermelho, por outro lado, que já começaram o jogo pobres e combalidos, pagaram o preço de um desgaste físico e material impressionante para construírem sua vantagem no placar. Mesmo levando isso em conta, o técnico do Capital decidiu fazer mais alterações. Mandou renomear seu time de Capitalismo para Mundo Livre Democrático, e orientou os locutores da imprensa esportiva a chamarem o adversário de Império do Mal Comunista, ou simplesmente Comunista (por que será que essa palavrinha soa tão pesada??). E pra ver se dava sorte, também aproveitou pra mudar o uniforme do seu time. Tendo descido aos vestiários de calção e camisa brancos, agora os onze Heróis da Liberdade voltavam ao gramado de calção azul estrelado e camisa com listras vermelha e branca. Já os comunistas voltaram pra etapa final com as mesmas cores e a mesma formação, com a exceção do meia Trotsky e do volante Zezé “Partisan” Tito, expurgados do time pelo capitão Tio Zé “Coveiro” Stálin (que mudou de apelido depois de concluir que “Kulak” não parecia malvado o suficiente).


Logo nos minutos iniciais da etapa complementar a mudança de estratégia do técnico “Sr. Sistema” (que mudou seu próprio apelido para “Tio Sam”) começou a equilibrar o jogo. O carisma e o apelo irresistível dos laterais Consumismo e Hollywood começavam aos poucos a ganhar a torcida, enquanto os gandulas iam cumprindo com primor seu serviço de fraudes eleitorais e golpes, primeiro na Itália, depois na Grécia, na Coréia, na Indochina, e mais tarde na África e no delicado campo de defesa do Capital (mais conhecido como América Latina). Mesmo assim o placar seguia inalterado, quando aos 14 do segundo tempo (ou como os gringos contam, aos 59 minutos de jogo), em veloz triangulação de Fidel, Che e Raúl, a zaga capitalista foi pega de surpresa novamente e a bola foi morrer no fundo das redes. Socialismo 4 x 0! Agonia do Capital, festa da cada vez mais numerosa torcida vermelha. Doidos de paranóia, os beques burgueses (que já vinham distribuindo botinadas na Argélia, no Congo e no Vietnã), decidiram reforçar a defesa com mais repressão (ou nas palavras do locutor, “segurança democrática”) no Oriente Médio, na África do apartheid do Sul, nas colônias portuguesas e, claro, na América Latina. Enquanto isso, escondidos debaixo das arquibancadas, os cartolas já planejavam uma “virada de mesa” (ou como dizem por aí, Guerra Nuclear!).


No lado socialista porém, apesar da vantagem no placar e da vitória quase certa (precisamente como previra aquele outrora desacreditado comentarista alemão barbudo), os jogadores batiam cabeça e não chegavam a um consenso sobre o que fazer dali em diante. Che Guevara e Mao Tse-Tung queriam seguir o exemplo de Ho Chi Mihn e partir pra cima dos capitalistas, mas Kruschev e Breznev falavam em “coexistência pacífica” (afinal, diziam eles, em time que está ganhando não se mexe), ao mesmo tempo em que davam de relho nos volantes Tcheco, Húngaro e Polaco, que insistiam em desafiar a férrea disciplina tática do Monolitismo Soviético. Já o técnico comunista, vencendo por acachapantes quatro a zero aos vinte e pouco do segundo tempo (ou sessenta e tanto para os gringos), com todos os craques no seu time e com as arquibancadas cada vez mais do lado vermelho, julgou que o jogo já estava decidido e resolveu descer pros vestiários pra tirar uma soneca.


Porém o treinador acabou dormindo no ponto e quando acordou o tempo de jogo já estava nos 89 minutos. Subindo às pressas para o gramado, ele ficou estarrecido ao descobrir que o Capital havia virado o jogo para 7 x 4! Para o horror do treinador rubro, tudo havia mudado em campo. Seus craques haviam desaparecido, substituídos por velhos lentos e pançudos que mal tocavam na bola de tão preguiçosos. Revoltada com o futebol burocrático agora jogado pelos de vermelho, a totalidade do público nas arquibancadas passara a torcer para o time do Capitalismo. O comunista não podia acreditar no que via! Enquanto dormia no ponto, seu time começara a se esfacelar em campo nos últimos minutos e passara a sofrer gols sem parar do seu arquiinimigo, tudo sem que ele sequer percebesse! Voando em campo, o time do Capital virara o jogo com gols da Tecnologia, do Ecologismo, da Contracultura, do Liberalismo e do Mercado Regulado (que entrara no lugar do Livre Mercado para, com passadas dinâmicas e ágeis, dar um drible desconcertante na lenta Economia Planificada e marcar um golaço), além de mais um tento do Consumismo e um incrível gol contra do Movimento Sindical e Operário. Até as Bandeiras da Democracia e da Liberdade, que por tanto tempo estiveram do lado do Socialismo, agora dançavam alegremente atrás do gol do escrete do Capital, comemorando a vitória iminente daquele time que até pouco tempo atrás elas tão fervorosamente torciam contra. Sem poder fazer mais substituições, o atônito técnico comunista decidiu mandar avançar no ataque a Igualdade, a única que ainda jogava alguma coisa pelos vermelhos. Mas já era tarde demais para buscar o empate e aos 46 do segundo tempo (ou melhor, aos 91 de jogo) o juiz encerrou a partida. Vitória de goleada do Capitalismo! Festa no gramado, nas arquibancadas e por toda a parte pela título do escrete do Capital. Do outro lado, ninguém parecia sequer lamentar a derrota Socialista. Até mesmo o treinador comunista pendurou o boné e decidiu se aposentar, de forma que o time socialista, que até pouco tempo desafiara o Capitalismo de igual pra igual, desaparecera por completo tão logo o juiz encerrara a partida. Extasiados com a surpreendente e esmagadora virada de seu time, a imprensa esportiva enchia a boca pra falar que “sempre soube” do resultado final, que agora sim não havia mais jogo, a História havia acabado e o Capital era campeão inconteste. Aquele comentarista esportivo, o tal do alemão barbudo, estava errado afinal de contas, diziam os especialistas no esporte. O Capitalismo era mesmo o melhor!


Porém, à medida que o tempo ia passando, as arquibancadas se esvaziavam e a poeira da retumbante festa da vitória se assentava, as pessoas foram percebendo que, embora vencera de goleada, o Capitalismo não era aquele timaço que todos imaginavam. Novos concorrentes em potencial, como a Miséria, a Criminalidade, a Desigualdade, a Xenofobia, o Terrorismo e as Crises Ambiental e Econômica pareciam querer desafiar o Capital pra uma nova partida, num jogo de selvagerias que, sob o risco de não ter a quem torcer, todos desejavam que jamais ocorresse. Em meio a esse clima de indefinição quanto ao futuro do esporte, um punhado de “malucos” decidiu se juntar para tentar refundar o time do Socialismo. Eles sabem que são poucos, que seu amadorismo de time de várzea não chega aos pés nem do poderoso e profissional time do Capital nem dos agora principais rivais deste, o Caos e a Barbárie. Sabem também que o time anterior do socialismo já está extinto de vez e que, como qualquer um que morre, continuará morto para sempre. Mas mesmo assim eles ousam fundar um novo time de vermelho, renovado no seu futebol e na confiança daquele velho comentarista alemão barbudo de que o time do Capitalismo estava longe de ser invencível. Convencidos de que o campeonato não acabou, eles sabem que o Socialismo tem o direito de disputar o jogo de volta, e vão lutar com afinco por isso, correndo por fora pra superar os favoritos e, quem sabe assim, beliscar a taça. Aprender com as falhas do primeiro jogo é o primeiro passo para voltar a exibir um futebol vistoso e reconquistar o apoio da torcida, diz o novo técnico Movimento Anti-Globalização. Perdido em meio a esse mundo de crises, continua ele, o público está ansioso por encontrar outro time digno de sua torcida, e cedo ou tarde eles vão encontrar a quem torcer. Será que o alemão barbudo estava errado mesmo?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

ESPECIAL: 65 anos da Revolução Iugoslava, da autogestão e do socialismo com liberdade: a história de um exemplo para o mundo

Há 65 anos atrás, começava a nascer de uma revolucão socialista a primeira experiência prática de autogestão a nível de nação - a autogestão iugoslava, que com seus erros e acertos representa ainda hoje uma experiência valiosa e de conhecimento obrigatório a todos que sonham com uma sociedade livre e sem exploração.
autogoverno@gmail.com

Nascido em 1918, após a derrota e dissolução do vasto Império Austro-Húngaro na Primeira Guerra Mundial, o Reino da Iugoslávia surgiu da confluência de interesses entre o Pan-Eslavismo (sentimento de união entre os povos “eslavos do sul”) com os diversos nacionalismos locais, que buscavam se proteger mutuamente no instável cenário político da Europa de então. Logo, porém, o reino imergiu em uma série de lutas internas que culminaram na consolidação de uma ditadura monárquica dos sérvios sobre os demais povos. Invadida pela Alemanha Nazista em 1941, a Iugoslávia foi parte anexada, parte dividida em Estados fantoches, sob um clima de caos e sectarismo que deu vazão aos seculares ódios étnicos locais: ao norte, o movimento fascista croata Ustaše (ou Ustashi), sob apoio nazista, iniciou uma campanha de genocídio étnico contra os sérvios; e ao sul, o movimento monarquista sérvio dos Chetnik, que iniciou lutando contra a ocupação alemã, rapidamente tornou-se colaboracionista. Em meio a esse cenário, o Partido Comunista Iugoslavo passou a crescer em popularidade e em influência através da sua guerrilha antifascista (Partisan), que mesmo combatida simultaneamente por alemães, italianos e Chetniks, tornou-se um constante tormento às forças do Eixo, obrigando-as a deslocar grandes contingentes militares para a região. Em 1943, liderados por Jossip Broz “Tito”, os Partisans proclamaram nas montanhas no interior do país o governo da Iugoslávia socialista, que assumiu o poder a nível nacional após a expulsão definitiva dos nazistas em 1945, levada a cabo com a ajuda de tropas britânicas e soviéticas.

No imediato pós-guerra, o governo comunista iugoslavo alinhou-se à União Soviética e afastou-se dos países ocidentais, ao mesmo tempo em que iniciou a estatização generalizada da economia nacional no estilo stalinista. Porém, as contínuas interferências soviéticas contra a soberania iugoslava logo começaram a deteriorar a relação entre os dois países. Por imposição direta de Stalin, que sempre vira com desconfiança Tito e seus camaradas, a União Soviética iniciou uma campanha de hostilidade aberta contra o regime iugoslavo dentro do bloco de países comunistas, culminando com o rompimento entre os dois países em 1948. Com isso, externamente a revolução iugoslava se viu isolada tanto com relação ao ocidente quanto com seus vizinhos comunistas (além de ameaçada por uma possível invasão soviética), enquanto internamente se via confrontada com os problemas trazidos pelos rigores da economia planificada de estilo soviético, que com sua lentidão, ineficiência e controle excessivo sobre a vida dos cidadãos, já disseminava descontentamento entre a população.

Confrontados por tais desafios, os dirigentes iugoslavos se viram obrigados a repensar os rumos de seu processo revolucionário. Nas palavras de Edvard Kardelj, que se tornaria o principal ideólogo da Iugoslávia socialista, “sentimos a necessidade de retornar às origens do pensamento de Marx e da livre associação de produtores por ele proposta”. Assim, a partir daí, os comunistas iugoslavos iniciaram um amplo e profundo processo de desburocratização e democratização da economia e da sociedade iugoslavas que evoluiria pelas três décadas seguintes e ficaria famoso mundialmente com o nome de autogestão (da expressão servo-croata samoupravljane). O primeiro ponto básico de tal processo consistia na idéia de que uma condição necessária para a realização de um socialismo o mais democrático, livre e emancipador possível era a participação direta das pessoas no maior número possível de esferas da vida; excetuando-se o Partido e as Forças Armadas, não apenas fábricas e demais empresas deveriam ser autogeridas (ou seja, administradas pelos próprios trabalhadores ao invés de pelo governo) como também escolas, clubes, associações, até mesmo o Estado, tudo deveria estar sujeito ao princípio da autogestão, disseminando assim relações interpessoais democráticas por toda a sociedade. O primeiro passo para tanto foi a instituição em 1950 da autogestão das fábricas, o que de imediato desviou cem mil burocratas de cargos administrativos para funções produtivas. Também na política importantes reformas foram realizadas, tais como a reforma do Partido Comunista, que ao tornar-se a Liga dos Comunistas da Iugoslávia afastou-se do aparelho estatal e deixou formalmente de ser o partido governante do país para tornar-se uma organização meramente difusora e estimuladora dos valores socialistas em meio à sociedade, tornando a Iugoslávia a primeira nação do mundo sem partidos políticos. Já o segundo ponto básico, que ia de encontro não só com o anterior, mas também principalmente com a essência do projeto político marxista-leninista, consistia em levar a cabo o chamado definhamento do Estado. Se, como Lênin e Marx afirmaram, o ser humano só poderá se tornar plenamente livre e realizado em uma sociedade posterior à socialista, onde não há nem Estado nem classes sociais (portanto, uma sociedade comunista), seria no mínimo um desvio crasso iniciar a construção de tal sociedade pela via contrária, ou seja, reforçando-se o Estado; estaria-se assim repetindo um caminho sem volta rumo a uma versão autoritária e engessada de socialismo que, em todo o mundo socialista, somente a Iugoslávia logrou evitar. Assim, como conseqüência dessa vital percepção, buscou-se reduzir o tamanho do aparelho estatal, principalmente a nível local e regional, substituindo-o aos poucos em suas tarefas e funções por uma crescente sociedade auto-organizada. Socialismo com liberdade através da autonomia, e autonomia através da participação, eram portanto as bases da autogestão iugoslava.

Mesmo após a normalização das relações com o ocidente (1948-50) e com a União Soviética (1955), o processo de autogestão continuou a se aprofundar na Iugoslávia com as reformas constitucionais de 1963 e 1974, que estenderam ainda mais as liberdades civis e o grau de democracia, bem como aumentaram a autonomia das diferentes Repúblicas e Províncias que compunham a federação iugoslava (atendendo às fortíssimas pressões nesse sentido que cresciam especialmente na Eslovênia e na Croácia). Como resultado, a Iugoslávia experimentou entre as décadas de 50 e 70 um desenvolvimento intenso e completo, combinando um forte crescimento econômico com igualdade e um alto grau de liberdade, dentre estas o direito básico de ir e vir para dentro e para fora do país, exemplo único em todo o mundo socialista.

No plano exterior, a Iugoslávia desenvolveu uma postura de neutralidade no cenário mundial da Guerra Fria, se relacionando de forma normal e soberana com ambos os lados em conflito; embora ainda socialista, a liderança iugoslava via claramente que um alinhamento à União Soviética levaria inevitavelmente a uma submissão completa do país aos desmandos de Moscou. Sob a liderança de Tito, o país também teve um papel fundamental tanto como criador quanto como líder do Movimento dos Países Não-Alinhados. Coerente, a política exterior iugoslava não deixou de condenar como inaceitáveis tanto as ações imperialistas dos EUA no Vietnã quanto também a agressão soviética à Tchecoslováquia (1968). Tais atos levaram o país a ser visto pelos demais governos comunistas e por seus simpatizantes mundo afora como um “pária” no mundo socialista, menos porém por seus atos do que pelo perigo em potencial que o exemplo iugoslavo lhes representava: de fato, o resultado mais importante da autogestão iugoslava foi o florescimento naquele país, em um fenômeno único em todo o mundo, de um verdadeiro poder da classe trabalhadora, que contrastava visivelmente com o poder das classes burocratas no restante do mundo socialista. Tal fato tornou a palavra “autogestão” uma verdadeira assombração para as elites governantes do restante do Leste Europeu, o que pode ser comprovado por importantes episódios históricos: em 1968, poucos dias após Tito ser recebido na Tchecoslováquia pelo presidente Dubček e por uma multidão eufórica nas ruas de Praga, tropas do Pacto de Varsóvia invadiram o país, abortando assim as reformas socialistas levadas a cabo pelo Partido Comunista local. A seguir, ideólogos oficiais do recém-restaurado establishment stalinista tcheco iniciaram junto à classe trabalhadora uma campanha de difamação contra a autogestão, afirmando cinicamente que ao negar-lhes tal autogestão, o Estado pretendia “poupar-lhes do desnecessário esforço extra de se auto-administrarem”; da mesma forma, uma década depois, o fechado e ultra-dogmático regime stalinista da Albânia rompia relações com a China maoísta declarando-a “revisionista” e “traidora do socialismo” não por causa da viagem do presidente estadunidense Richard Nixon a Pequim (1971), mas sim anos depois, imediatamente após uma visita oficial de Tito à China (1977). O próprio Tito simbolizava como nenhum outro o modelo iugoslavo de autogestão; embora presidente vitalício, ao longo dos anos 60 e 70 Tito reduziu seus próprios poderes em favor das novas instituições por ele criadas, como a Presidência Coletiva, órgão formado por representantes das oito Repúblicas e Províncias integrantes da Federação Iugoslava, que passaram a se revezar anualmente no cargo de chefe do governo central após a morte de Tito, em 1980.

Nos anos que se seguiram à morte de Tito, porém, os valores de socialismo e de autogestão por ele trazidos passaram a se deteriorar rapidamente: ao desaparecimento da sua liderança carismática e unificadora e à própria crise do socialismo no Leste Europeu se somaram outros problemas específicos à realidade iugoslava, tais como a fraqueza do poder central (fato comum a qualquer federação multiétnica minimamente democrática) e a dependência econômica do país junto ao mundo capitalista (conseqüência do relativo isolamento iugoslavo com relação a seus vizinhos socialistas), fatores que vieram de encontro com a crise global da dívida externa e agravaram suas conseqüências: o crescimento violento da inflação e do desemprego acabaram assim por exacerbar não só as já existentes diferenças entre as cúpulas governantes das repúblicas – Croácia e Eslovênia, mais ricas e desenvolvidas, querendo mais autonomia junto ao governo central, enquanto a Sérvia, maior, mais pobre e atrasada, querendo mais poder – como também ressuscitaram com força máxima as rivalidades nacionalistas entre os diferentes povos iugoslavos. Em meio a esse cenário, se somava também a complexa questão da luta de classes na Iugoslávia: pois o fato é que, embora bastante enfraquecida pelo poder simultâneo da classe trabalhadora oriundo da autogestão, a classe burocrata nunca desapareceu por completo do país, sobrevivendo graças à divisão relativa entre trabalhadores de um lado e governantes e gerentes de grandes empresas de outro. Encontrando na crise dos anos 80 uma oportunidade de suprimir em definitivo o incômodo poder rival dos trabalhadores, as classes burocratas das diferentes repúblicas iugoslavas aumentaram seu poder instigando o ódio nacionalista como forma de propagar ideais direitistas e semear confusão e divisão em meio à classe trabalhadora. Assim, enquanto a Iugoslávia se esfacelava em meio ao ódio étnico e à posterior Guerra Civil (1991-1995), procedia-se na surdina e em todas as partes à destruição da autogestão; sem qualquer resistência, empresas estatais antes sob controle dos trabalhadores eram ou privatizadas ou novamente submetidas ao controle direto do Estado, através de políticas igualmente levadas a cabo até mesmo por líderes tão inimigos e tão diferentes entre si quanto o croata pró-ocidental Franjo Tuđman e o conservador sérvio Slobodan Miloševic.

Atualmente, mesmo dividida e completamente submetida à ordem global neoliberal, a região da antiga Iugoslávia ainda abriga dentro de si resquícios da autogestão. Em todas as ex-repúblicas iugoslavas ainda é possível encontrar empresas autogeridas de pequeno e médio porte, uma semente do poder de classe dos trabalhadores que, embora disperso e enfraquecido, insiste em sobreviver; e todos os anos, especialmente na Sérvia, multidões celebram o aniversário de Tito, mantendo acesa a chama dos seus ideais socialistas. Independente disso, a experiência autogestionária da Revolução Iugoslava jamais poderá ter apagada da História suas inúmeras e impressionantes conquistas: de um país agrário e atrasado, completamente arrasado após a Segunda Guerra Mundial, a Iugoslávia socialista se tornara já nos anos 80 uma nação industrializada, com uma renda por habitante 50 vezes maior que a da época anterior à revolução, além de ter erradicado a miséria e o analfabetismo e alcançado índices de expectativa de vida e mortalidade infantil comparáveis aos dos países mais avançados do planeta: feitos comuns à maioria das nações socialistas, porém com a diferença crucial de que a Revolução Iugoslava alcançou as mesmas conquistas que os seus vizinhos do Leste Europeu sem sacrificar a liberdade de seu próprio povo em contrapartida. Também o julgamento da História é favorável à via iugoslava de socialismo em comparação com a via adotada pelos demais países socialistas da Europa oriental ao se estudar as causas que levaram à derrota da totalidade dos processos revolucionários da região. Pois diferente do socialismo estatizante de estilo soviético, que desmoronou sob o peso incontornável de seus próprios problemas estruturais, inerentes à lógica deste sistema, a grande maioria dos problemas do socialismo de autogestão foram, ao contrário, conjunturais ou próprios da realidade iugoslava, sendo portanto perfeitamente possíveis de serem corrigidos.

Assim, 65 anos após seu nascimento, e mesmo uma década e meia após sua supressão, a Revolução Iugoslava ainda pode ser comemorada como um exemplo ao mundo, por demonstrar na prática que a sua mais valiosa contribuição à Humanidade, o socialismo de autogestão, muito além de ser uma alternativa tanto viável ao capitalismo quanto única na combinação de justiça social com liberdade, também comprovou ser a chave para a questão crucial da criação de um verdadeiro poder da classe trabalhadora, condição esta necessária para a edificação de um socialismo livre, dinâmico e democrático – portanto genuinamente marxista – capaz de evoluir rumo à futura sociedade comunista sem Estado nem classes sociais.